Crítica: em “Like a Prayer”, Madonna abre diário e entrega seu disco mais pessoal
Em comemoração ao lançamento de “Confessions II“, durante esta semana revisitaremos a discografia de Madonna. O próximo álbum a ser analisado, “Like A Prayer“, é um dos grandes marcos não só na discografia da cantora, mas também como no cenário da música pop.

Capa de “Like A Prayer” de Madonna. Imagem: Reprodução
Em 1989, Madonna tinha tudo para estar em colapso. Dois filmes fracassados, um casamento destruído com Sean Penn e a morte recente do parceiro criativo de anos. Ela havia completado 30 anos, a mesma idade em que sua mãe morreu. Em vez de recuar, ela entrou no estúdio. “Like a Prayer“, lançado em 21 de março de 1989, saiu desse turbilhão. É o disco mais denso, mais corajoso e mais completo de sua carreira até então. É também onde ela deixou de ser uma pop star para se tornar uma artista.
Madonna continuou trabalhando com Patrick Leonard e Stephen Bray, seus parceiros de “True Blue“. Mas “Like a Prayer” soa diferente porque Madonna chegou ao estúdio diferente. Leonard recordou que Madonna normalmente trabalhava rápido, mas devido ao tom emocional do projeto, levou três ou quatro vezes mais tempo para fazer o disco porque ela não parava de se emocionar. Pela primeira vez, ela sabia exatamente o que queria ouvir e como articular isso tecnicamente. O disco usa instrumentação ao vivo e incorpora funk, gospel, soul e rock numa base pop mais ampla. O resultado tem textura e peso que os álbuns anteriores não alcançavam.
Prince tocou guitarra em várias faixas do álbum, sem crédito. Ele aparece na introdução de “Like a Prayer“, em “Keep It Together” e em “Act of Contrition“. O encontro entre os dois começou nos bastidores. Madonna viajou até Minneapolis para escrever com ele, mas a colaboração acabou acontecendo à distância, com os dois trocando fitas pelo correio, porque ela simplesmente não suportava Minneapolis no inverno. Dessa troca nasceu “Love Song“, a única faixa co-escrita e co-produzida pelos dois. É um slow jam hipnótico, de funk denso e lento, com os dois se alternando nos versos num vai e vem que parece tanto uma disputa quanto uma sedução. É uma colaboração única entre dois dos artistas mais influentes dos últimos 45 anos da música popular. E é, curiosamente, uma das faixas menos lembradas do disco.
A faixa-título abre tudo. Para a introdução, Leonard usou gravações de guitarra feitas por Prince, algo que só foi confirmado publicamente em 2014. A música começa com esse riff misterioso, depois a porta bate, o coro entra e tudo explode. É pop rock com gospel no sangue, e a letra opera em duplo sentido desde o primeiro verso: é uma canção sobre Deus que também é uma canção sobre desejo, sobre culpa, sobre Sean Penn, sobre a mãe morta. Tudo ao mesmo tempo. Para a Entertainment Weekly, a faixa alcança uma transcendência espiritual, equilibrando o sagrado e o secular de forma que te leva lá repetidamente.
“Express Yourself” vem na sequência e entrega o contraponto necessário: funk de pista com letra de empoderamento, produção de Leonard no seu auge, e Madonna em modo declarativo. É um dos hinos mais honestos de sua carreira, sem ironia, sem duplo sentido. Ela simplesmente diz o que pensa. “Cherish” é mais leve, com referências ao doo-wop dos anos 60, e funciona como um respiro dentro de um disco que carrega muito peso emocional.
“Oh Father” é uma das faixas mais difíceis do álbum, no sentido mais precioso da palavra. A relação de Madonna com o pai, Silvio Ciccone, marcou sua infância e atravessa o disco inteiro. Aqui, ela enfrenta esse tema sem metáforas. A produção é contida, quase austera. “Promise to Try” faz o mesmo com a mãe, e é onde a voz de Madonna soa mais vulnerável do disco. “Till Death Do Us Part“, por sua vez, é um dos registros mais crus sobre o casamento fracassado com Sean Penn, descrito em detalhes concretos: gritos, violência, ciclos de destruição. É desconfortável de ouvir e completamente necessária no corpo do álbum.
“Dear Jessie” é a surpresa do disco, uma faixa infantil e psicodélica inspirada na filha de Patrick Leonard. É exuberante e estranha e não combina com nada ao redor, o que a torna essencial. “Keep It Together” funciona como um grito pelo vínculo familiar, com uma linha de baixo que não te larga. Por fim, “Act of Contrition” encerra o álbum de forma incomum: Madonna recita o ato de contrição católico sobre a faixa-título tocada ao contrário, com guitarras de Prince rasgando o fundo. É caótico e intencional. É o exorcismo final de tudo que o disco processou ao longo dos quarenta minutos anteriores.
“Like a Prayer” é o disco onde Madonna encontrou o que estava procurando desde o começo. O gospel não é uma citação aqui, é estrutura. O funk não é referência, é o chão. E a confissão, tema central do catolicismo que moldou sua infância, vira o método criativo do projeto inteiro. Nenhum dos álbuns anteriores tinha essa coesão, nem essa coragem de ser feio quando precisava ser. É pop que não pede licença para existir no mesmo espaço que a arte. Enfim, trinta e seis anos depois, continua soando como uma obra que ainda não foi totalmente decifrada.
Tá na boca do povo:



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