Crítica: Em “PRIMA”, ADÉLA soa como muita gente, menos ela própria

quinta-feira, 10 de setembro de 2026
por Davi Bittencourt

ADÉLA, em “The Provocateur”, se mostrou uma artista com uma personalidade muito interessante, marcada por um electropop imponente que se ousava em texturas ruidosas de estilos edm que bebiam bastante do electroclash e em momentos pontuais apontavam ao electro-industrial, além de manifestar uma energia provocativa em suas composições, misturando sexualidade com críticas à indústria do entretenimento. Apesar de ser um trabalho que evidenciava uma artista iniciante que ainda tinha muito o que mostrar, “The Provocateur” tinha uma alma de muita ousadia.

Capa do álbum de estréia de ADÉLA, "PRIMA". Imagem: Divulgação.

Capa do álbum de estréia de ADÉLA, “PRIMA”. Imagem: Divulgação.

É muito estranho ouvir o novo álbum de ADÉLA, “PRIMA”, conhecendo o seu trabalho anterior, pois parece uma artista completamente diferente da que tinha sido nos mostrado em “The “Provocateur”. Sua sonoridade não se assemelha em nada ao do EP da cantora, mas o problema não está unicamente nisso. “Ain’t In LA” é um exemplo de que transformar seu som pode causar bons frutos, aqui a artista abraça a nostalgia do pop dos anos 2010, com elementos que lembram muito especificamente de “We Can’t Stop” de Miley Cyrus e que no geral trazem aquela sensação tumblr do período.

No resto do disco, o que se torna perceptível é uma falta enorme de personalidade, nesse sentido, o significado do “completamente diferente” de “The Provocateur” se torna acima de uma mudança absurda na sonoridade, mas principalmente no tipo de artista que ADÉLA se porta no EP e agora: se ela era provocativa e ousada antes, em “PRIMA” ela parece ter sido confeccionada em um molde para fabricar a cantora mais genérica possível.

Ao longo do álbum, o ouvinte sente estar ouvindo diversas vezes coisas que parecem descartes de “So Close To What?”, de Tate McRae, em outros, ela parece um pouco a Ariana Grande. “Therapy” está causando comparações com “B.O.A.T.”, de Camila Cabello, pela sua estrutura de balada voz e piano carregada de reverb e autotune, criando uma camada sintética de atmosfera noturna e melancólica. Essa faixa, inclusive, é clara em demonstrar a falta de ligação sonora durante a obra. Sendo posicionada entre dois dos momentos mais energéticos do disco, ela soa muito deslocada. Isso ocorre não somente nesse momento, mas também no início, com a passagem de “KGB” para “Nicole Kidman”. A sensação é de estar escutando uma playlist no aleatório.

Tem apenas uma faixa, além da citada “Ain’t In LA”, que parece genuinamente ter a personalidade de ADÉLA, “KGB”, a única que preserva o estilo edm-pop de “The Provocateur”, com sequenciadores e baterias fortemente energéticas e imponentes acompanhadas de uma composição lírica igualmente provocativa. De resto, “PRIMA” parece uma mistura das sonoridades mais básicas do pop atual que nada tem a ver com o que ela construiu como sua identidade sonora, por isso, a cantora soa como muita gente aqui nesse disco, menos ela própria.

Gênero: Pop

Gravadora: Capitol Records 

Data de lançamento: 04/09/2026

 

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