Crítica: Em “Day and Night”, Carly Rae Jepsen propõe uma viagem completa pelo pop

domingo, 20 de setembro de 2026
por Mateus Melo

Carly Rae Jepsen nunca foi exatamente uma artista de trabalhar com pouco. Ao longo da carreira, a cantora construiu uma espécie de tradição de criar álbuns-irmãos: Emotion ganhou suas próprias B-Sides, assim como o Dedicated, e The Loveliest Time nasceu como contraponto ao The Loneliest Time. Em Day and Night, porém, Carly leva essa lógica a outro nível: pela primeira vez, entrega um álbum duplo completo, com 24 faixas que representam, individualmente, cada uma das 24 horas de um dia. É uma proposta ambiciosa e, felizmente, o tamanho do projeto não vem acompanhado de uma sensação equivalente de excesso.

Carly Rae Jepsen para a capa de “Day and Night”. Imagem: Divulgação

Dois lados, uma só narrativa

Dividido entre os lados “Day” e “Night”, o seu oitavo álbum de estúdio funciona quase como um ciclo. O primeiro lado acompanha as diferentes nuances do período diurno, passando por momentos mais solares e outros mais contemplativos, enquanto o segundo mergulha progressivamente em uma atmosfera noturna, mais dançante e eletrônica. A ideia poderia resultar em um álbum conceitual que soa muito calculado, mas Carly consegue fazer com que as duas metades tenham identidades próprias sem deixar de parecer que pertencem à mesma obra.

O “Day” é, talvez, o lado mais refinado do projeto. A produção transita por sophisti-pop, soft rock e indietronica, revelando uma Carly menos interessada em simplesmente reproduzir a fórmula pop perfection e mais disposta a explorar texturas. É também onde aparecem algumas das melhores produções do álbum. “On Wires” se destaca especialmente, não apenas como um dos grandes momentos de Day and Night, mas como uma das músicas mais fortes de toda a carreira da cantora. “After All” e “Something Tragic” seguem a mesma linha, mostrando como Carly consegue transformar arranjos relativamente delicados em canções pop emocionalmente envolventes.

Mas é quando a noite chega que Day and Night realmente encontra seu brilho. O lado “Night” abandona parte da sofisticação orgânica do primeiro ato para mergulhar em Disco, House e Synthpop, criando uma sequência muito mais imediatamente viciante. “Amalfi Coast” e “Don’t Leave on the Dancefloor” são alguns dos grandes destaques, enquanto “Never Let a Good Thing Die” e “Motivation” exploram a faceta mais clubber de Carly sem sacrificar a sua habilidade melódica. O encerramento com “Super Sage” funciona como uma espécie de amanhecer depois da madrugada: uma conclusão que dá ao projeto uma sensação de percurso completo, como se as 24 faixas realmente formassem um único ciclo.

Coesão e conceito predominam

É inevitável, entretanto, que um álbum com 24 músicas tenha alguns momentos menos impactantes. “Just a Little Walk on the Moon” e “Wild Child” estão entre os pontos mais fracos do disco e dificilmente competem com seus melhores momentos. Ainda assim, chamá-las de fillers seria simplificar demais a proposta. A própria existência de faixas menos explosivas faz parte da lógica de Day and Night: se cada música representa uma hora, o álbum não poderia ser composto exclusivamente de clímax. Assim como um dia real possui momentos extraordinários e outros absolutamente banais, Jepsen permite que seu disco respire. E talvez seja justamente essa coerência conceitual que o impede de parecer simplesmente um álbum longo demais.

Day and Night é mais uma prova de que Carly Rae Jepsen continua sabendo fazer aquilo que parece simples, mas é extremamente difícil: construir pop acessível sem torná-lo descartável. O resultado não supera Emotion, mas, sejamos honestos, essa é uma barra quase covarde de se colocar diante de qualquer álbum da discografia de Carly. O clássico de 2015 estabeleceu um padrão difícil de alcançar. Ainda assim, Day and Night chega perigosamente perto.

Com dois lados distintos, uma proposta conceitual bem executada e uma coleção de faixas que alterna intimidade, sofisticação e pura vontade de dançar, Carly entrega mais um ótimo projeto. Talvez não seja seu melhor álbum, mas é um dos mais interessantes justamente por mostrar que, mesmo depois de tantos anos explorando o amor, a pista de dança e o pop, ela ainda encontra novas maneiras de organizar essas mesmas obsessões. Jepsen continua sabendo exatamente como fazer o relógio trabalhar a seu favor.

GÊNERO: Alt-pop, Dance pop 

GRAVADORA: Interscope Records

LANÇAMENTO: 18/09/2026

 

 

Você também vai querer ver
voltar