Contratos do NewJeans proíbem namoro e críticas à gravadora e preveem uso de voz por IA

quinta-feira, 5 de novembro de 2026
por Arthur Rodrigues

O jornal The New York Times publicou nesta quinta-feira (5) uma reportagem com base nos contratos das cinco integrantes do NewJeans com a Ador, selo da Hybe. As cantoras assinaram os documentos quando tinham entre 14 e 17 anos. Os textos trazem regras de comportamento, multas de saída e direitos sobre a imagem do grupo. Além disso, os contratos omitem proteções que um modelo do governo sul-coreano prevê. Assim, o material mostra por dentro como as gravadoras controlam até os maiores grupos do K-pop.

NewJeans em foto promocional. Imagem: Reprodução

NewJeans em foto promocional. Imagem: Reprodução

O contexto da disputa

Em 2024, as integrantes anunciaram em coletiva que deixariam a Ador. Em resposta, a gravadora entrou na Justiça contra o grupo. Depois de quase um ano, os juízes decidiram a favor da empresa, em março de 2025. Com isso, o NewJeans não pode atuar por conta própria. Os contratos valem até 2029.

As proteções que ficaram de fora

O governo da Coreia do Sul mantém um modelo de contrato para o setor. O texto garante a artistas menores de idade direito à saúde física e mental, à educação e ao descanso. Além disso, o modelo proíbe jornadas excessivas de trabalho. Os contratos do NewJeans, porém, não trazem essa linguagem. Segundo os especialistas ouvidos pelo jornal, a ausência dificulta que as artistas contestem suas condições de trabalho.

A Hybe responde que o modelo é apenas uma diretriz sem caráter obrigatório. Além disso, a empresa afirma que os pais das cantoras aceitaram os ajustes. Os e-mails obtidos pelo jornal, no entanto, mostram que os termos tiveram pouca negociação. Em janeiro de 2022, a mãe de uma integrante pediu mudanças antes de assinar. Em resposta, a vice-presidente da Ador sugeriu que a família reconsiderasse o contrato. No fim, os pais assinaram.

As regras de comportamento

Os contratos proíbem condutas como “atitude insincera”, “negligência com a autogestão” e “relacionamentos românticos inadequados”. Além disso, eles vetam declarações públicas que prejudiquem a reputação da empresa, verdadeiras ou falsas. Por isso, os especialistas avaliam que a gravadora tem margem ampla para alegar quebra de contrato.

O advogado Jong-eon Roh, de Seul, revisou o documento a pedido do jornal. Ele classificou o contrato como agressivo de maneira incomum. Segundo ele, poucos acordos recentes de grandes gravadoras restringem tanto a liberdade dos artistas. Já a advogada americana Dina LaPolt, que representou Britney Spears e Cardi B, afirmou que cláusulas desse tipo viraram raridade nos Estados Unidos.

Treinamento, dinheiro e cirurgias

Antes da estreia, as integrantes passaram anos em treinamento. Pessoas próximas ao grupo relataram ensaios que iam até as 2h da manhã. Além disso, câmeras monitoravam as salas de treino, e a equipe desencorajava pausas. Nesse período, quatro das cinco integrantes deixaram a escola. A Hybe nega que pressione artistas a abandonar os estudos. A empresa também diz que não penaliza ninguém por descansar.

Do ponto de vista financeiro, os especialistas consideram o contrato comum no K-pop. Depois de descontar as despesas, o grupo recebe cerca de metade do lucro de shows, publicidade e aparições. Em contrapartida, a fatia sobre vendas de discos e streaming é pequena. Além disso, o contrato obriga as integrantes a reembolsar parte dos gastos com beleza e cirurgias plásticas que ocorreram no treinamento.

A Hybe afirma que não exige cirurgia plástica. A empresa diz que nem recomenda procedimentos contra a vontade de alguém. Duas pessoas próximas ao grupo contam que a gravadora sugeriu procedimentos a várias integrantes. Porém, elas dizem que as sugestões não pareceram coercitivas, pois o procedimento é comum no país. Por outro lado, o NewJeans fugiu da regra em um ponto. A Hybe absorveu os custos iniciais, e as integrantes começaram a receber sem dívida de treinamento.

A multa de saída

O contrato prevê uma multa sobre a receita média mensal. O valor multiplica essa média pelos meses restantes de contrato. O modelo do governo usa uma fórmula parecida. No entanto, o documento do NewJeans considera só os meses em que o grupo faturou. Segundo os advogados, isso pode aumentar o valor. Além disso, a gravadora pode cobrar indenização à parte. A Hybe responde que a fórmula não infla a multa, porque o grupo fatura todos os meses.

Em dezembro de 2025, a Ador rescindiu o contrato de Danielle Marsh, então com 20 anos, e abriu um processo contra ela. A empresa cobra cerca de US$ 22 milhões, a maior parte em taxas de saída. Segundo a gravadora, Danielle recusou trabalhos, fez projetos solo sem autorização e assinou acordo com terceiros. Por outro lado, o advogado dela, Jung Jong-chae, diz que esses trabalhos servem de pretexto para punir a tentativa de rompimento. Além disso, ele apresentou queixa contra a Hybe e a Ador na Comissão de Comércio Justo da Coreia do Sul. Ele resume: “Se você tentar escapar do controle da Hybe, este é o preço que você vai pagar.”

Imagem e voz depois do contrato

O modelo do governo encerra os direitos da gravadora sobre nome, imagem e voz do artista quando o contrato termina. O contrato do NewJeans, porém, segue outro caminho. Depois de 2029, a Ador mantém o direito de usar e licenciar a identidade das integrantes. Elas continuam recebendo pagamentos. Mesmo assim, deixam de controlar o uso de seus rostos e vozes. Isso inclui clones de voz e chatbots que a inteligência artificial cria.

O que diz a Hybe

A Hybe afirma que negociou os contratos de seus selos de boa-fé e que eles são legais. Segundo a empresa, as cláusulas protegem o artista e o investimento financeiro. A companhia também diz que cumpre as leis de proteção a menores. Além disso, afirma manter ambientes seguros de trabalho e treino. Por fim, sustenta que suas multas de saída seguem o padrão do setor.

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