Karol G fala sobre Coachella, “Tropicoqueta” e Bad Bunny ao Los Angeles Times

terça-feira, 2 de dezembro de 2025
por Alice Arruda

O Los Angeles Times publicou na última segunda-feira (1) uma extensa entrevista de Karol G para a newsletterThe Envelope”, uma das mais prestigiadas do jornal. Em um ensaio fotografado por Bexx François, a artista colombiana refletiu sobre seu aclamado álbum “Tropicoqueta“, sua participação como headliner no Coachella 2026, a escolha de Bad Bunny como atração do próximo Super Bowl e episódios marcantes de sua vida pessoal.

Karol G para o Los Angeles Times. Imagem: Reprodução.

Karol G para o Los Angeles Times. Imagem: Reprodução.

Em fevereiro de 2024, Karol G viveu um dos momentos mais traumáticos de sua trajetória. Ela e parte da família embarcaram em um avião em Burbank com 16 passageiros a bordo. Minutos depois da decolagem, fumaça surgiu na cabine, forçando um pouso de emergência — uma experiência que a cantora descreveu de forma crua:

Foi realmente assustador, visualmente”, afirmou. “Ver fumaça dentro do avião, todos os alarmes disparando, foi uma loucura… Estávamos apenas sentados, esperando.

Esse episódio marcou profundamente uma fase de transição na vida da artista, que se prepara para subir ao palco como a primeira mulher latina headliner do Coachella, num momento de forte tensão para a comunidade latino-americana nos Estados Unidos sob o governo Donald Trump. Consciente de sua representatividade, ela vê sua presença no festival como missão cultural:

É como se fosse minha missão. Vejo isso como meu propósito… Preciso ir lá e representar minha comunidade latina, falar pelo meu povo e pelas mulheres.

Em 2010, ainda na adolescência, Karol G participou do “El Factor X” e já revelava um talento raro. Ao longo daquela década, colaborou com Ozuna, Bad Bunny e J Balvin, justamente enquanto o reggaeton explodia no cenário global. Ela se destacou não apenas por ser uma jovem mulher em um gênero historicamente masculinizado, mas pela maneira como o expandiu e o remodelou a partir de sua própria visão artística. Em 2017, lançou com Bad Bunny o sucesso “Ahora Me Llama“, considerado um divisor de águas em sua trajetória. Três anos depois, consolidou sua identidade artística com “Bichota“, um verdadeiro manifesto de força e autonomia feminina.

Em 2023, ela lançou “Mañana Será Bonito“, álbum marcado pela autodescoberta após o término de seu relacionamento com Anuel AA — uma obra histórica, a primeira inteiramente em espanhol de uma artista feminina a liderar a Billboard 200. O sucesso impôs pressão sobre o próximo passo. Ainda assim, em junho deste ano, Karol G surpreendeu ao lançar “Tropicoqueta“, saudado pela crítica e já acumulando mais de 2 bilhões de streams no Spotify.

O álbum celebra a amplitude da música latina ao reunir Thalia na faixa de abertura, Pharrell Williams na composição e produção de “Ivonny Bonita” e Marco Antonio Solís na emocionante “Coleccionando Heridas“. Em uma jornada sonora que percorre diversos gêneros, o projeto se impõe como o mais ousado da carreira, segundo a própria artista:

Acho que é o álbum mais arriscado da minha carreira porque eu não sabia como juntar todos esses gêneros…

Inspirada por memórias familiares e por seu pai, ela buscou criar uma experiência capaz de atravessar gerações – algo que sente ter alcançado em “Coleccionando Heridas“.

Em outro momento da entrevista, ela relembra um episódio ocorrido recentemente na Itália:

Recentemente, na Itália, eu estava em uma entrevista, e um cara me disse: ‘Música latina é reggaeton’…” Diante da afirmação ignorante, Karol G apenas riu antes de concluir: “Somos um universo de culturas e sons diferentes.

Karol G também comemora sua indicação ao Grammy 2026 na categoria “Melhor Álbum Pop Latino” com “Tropicoqueta“. Apesar de já ter conquistado inúmeros prêmios, evita a pressão competitiva:

Se eu não ganhar outro Grammy, não levo para o lado pessoal… Ainda é surreal.

No Coachella 2026, ela dividirá o posto de headliner com Sabrina Carpenter e Justin Bieber. A primeira vez no festival, em 2022, representou um divisor de águas:

Acho que tive um ‘antes’ e um ‘depois’ do Coachella.

Agora, promete um espetáculo ainda mais grandioso:

Muitos mundos diferentes para este show… um show realmente grandioso e inovador.

A cantora também celebrou sua apresentação na NFL, em São Paulo, em setembro:

[…] Eu amei aquele show, foi uma oportunidade de continuar expandindo nosso movimento.

Sobre Bad Bunny, escolhido para o Super Bowl 2026, onde fará sua apresentação cantando exclusivamente em espanhol e tem sido alvo de ataques da extrema direita estadunidense, Karol G comentou de forma direta e contundente:

É uma loucura. Acho que são poucas as pessoas que pensam assim, e a maioria está realmente curtindo a decisão de tê-lo no palco”, disse ela. “As pessoas que dizem não são poderosas e têm voz, então as pessoas ouvem e fazem disso um grande evento, mas eu sei que o Bad Bunny vai arrasar. Ele está pronto para isso. Ele faz parte dos dois mundos — Porto Rico é um território americano e, ao mesmo tempo, é latino. Acho que, para o momento que estamos vivendo como seres humanos, é ótimo tê-lo representando tudo isso. Eles só vão fazer com que ele se saia ainda melhor e em um nível ainda mais alto.

Um dos trechos mais sensíveis da entrevista remete ao que Karol G revelou em seu documentário “Mañana Fue Muy Bonito“, disponível na Netflix — quando expôs ter sido assediada sexualmente por um ex-empresário na adolescência e as represálias que sofreu após o episódio.

É sempre um desafio, você acorda e pensa que esqueceu as coisas, mas você nunca vai esquecer”, disse ela, revisitando aquela fase dolorosa da carreira. “Essa parte em particular foi difícil de lançar, mas minha equipe dizia: ‘Há muitas pessoas que vão te entender, e elas têm seus próprios fardos muito pesados. Então, talvez se elas te enxergarem através de você, elas terão mais força para suportá-los.’ Foi difícil, mas acho que sou um instrumento para algo maior.

Karol G encerra a entrevista reafirmando seu compromisso com a própria essência artística e destacando que não permite que números, métricas ou expectativas do mercado direcionem seus passos. Para ela, o foco precisa permanecer onde tudo começou: no propósito.

É por isso que você tem que se preocupar com o propósito em vez do resultado. O sucesso, o amor, isso vai acabar um dia. A coisa única e real que eu tenho para sempre é o sentimento pela minha música. É com isso que eu preciso cuidar mais.

Com uma carreira marcada por coragem, inovação e identidade cultural, Karol G chega ao Coachella 2026 em seu momento mais maduro — unindo passado, presente e futuro da música latina num palco onde, finalmente, sua voz encontra proporções históricas.

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