Crítica: Phoebe Bridgers se supera em “Lost Weekend”, seu álbum mais experimental
Existe um tipo de disco que parece ter sido encontrado em vez de lançado. Lost Weekend, terceiro álbum solo de Phoebe Bridgers, é desse tipo. Ouvir as 16 faixas é como virar as páginas de um diário que não era para você ler, mas que alguém deixou aberto na mesa e do qual você não consegue tirar os olhos. É um álbum denso, sombrio e, por isso mesmo, surpreendentemente luminoso.

Phoebe Brdigers para seu álbum “Lost Weekend”. Imagem: Divulgação
Seis anos se passaram desde Punisher. Nesse intervalo, Phoebe lançou o aclamado projeto do supergrupo boygenius ao lado de Julien Baker e Lucy Dacus, perdeu o pai Tony Bridgers em dezembro de 2022 e iniciou um relacionamento com o comediante e músico Bo Burnham. Ao longo desse tempo, ela também se recusou a lançar algo antes de estar pronta. “Acho que a maioria dos músicos indie compõe por dois anos e lança um álbum, depois compõe por mais dois anos e lança outro; mas, se eu tivesse parado depois de dois anos ou algo assim, teria a sensação de estar caindo de um precipício”, explicou. Essa recusa em se apressar define o disco que chegou.
Produzido por Tony Berg, Ethan Gruska, Jack Antonoff e a própria Bridgers, com produção adicional de Alex G, o álbum é o mais experimentalista de sua carreira solo. Bridgers contou que teve muita inspiração na ambient music para compor o disco. “A canção que mais ouço por prazer é, provavelmente, ambient music, mas nem percebi a quantidade de elementos que havia no disco até que ele estivesse pronto”, disse. O resultado é um álbum que respira diferente dos anteriores. As canções têm espaço para existir. A produção não preenche o silêncio, ela o usa. Os arranjos sobem e descem de forma orgânica, e as texturas eletrônicas aparecem não como ornamentos, mas como estados emocionais. Há momentos de distorção que parecem o som do pensamento em colapso, e há momentos de uma leveza quase física, como se o disco soubesse quando descansar.
“The Outside” abre o disco com o uso de um vocoder, que concede um efeito robótico à voz de Phoebe. “Kill Me” reflete sobre o envelhecimento e a passagem do tempo, e o instrumental crescente leva o ouvinte a uma espécie de catarse emocional. Logo depois, “Lost Boys” alivia momentaneamente a tensão com uma melodia mais acessível, sem perder a carga das letras.
“The Governor’s Waltz” usa vocais suaves para rememorar o Governors Ball Festival de 2021 e o relacionamento conturbado com Mescal. A faixa ganhou repercussão por referenciar a atual namorada dele, Gracie Abrams. É um dos momentos mais dolorosos do disco, e também um dos mais precisos: Bridgers simplesmente descreve, e isso dói mais.
Em contrapartida, “Bobby” é a faixa mais animada de toda a discografia solo da cantora. É Bo Burnham em versão borboleta no estômago, em versão começo de algo que ainda não tem nome. “Kill Me” menciona Burnham (“Bobby, you taught me that I know nothing”) e “Liberty Tree” volta ao tema do relacionamento, mas é “Bobby” que soa diferente de tudo que Phoebe já gravou. É quase desconcertante ouvir algo tão leve num disco tão pesado, e é exatamente por isso que funciona.
O ponto mais alto do disco é “Still Standing”. A faixa é uma reflexão profunda sobre o luto pelo pai e os sentimentos conflitantes que surgiram com ele: arrependimento, tristeza, raiva, alívio, devido à relação complexa dos dois e as lembranças negativas da infância de Phoebe. “Feeling indifferent wearing black / Sometimes I want you back / But not today”, canta. É o tipo de verso que faz a mandíbula apertar involuntariamente.
“As Above” começa introspectiva e escala para gritos da cantora no final, ressoando canções como “I Know the End”, de Punisher. Em “Lost Weekend – Reprise”, Phoebe encerra o disco com aceitação do luto e da vida após a perda: “My dream comes true / A fantasy dies / But we’re gonna be alright”. O fim, como muitas outras faixas, é abrupto.
Lost Weekend não é um álbum fácil de ouvir. Não porque seja impenetrável, mas porque é honesto demais para deixar qualquer distância confortável entre o disco e quem escuta. Há algo nele que lembra um scrapbook sonoro: fragmentos de memórias, mensagens de voz do pai morto, letras que parecem anotações feitas às 3 da manhã. Ouvir o disco inteiro é como encontrar memórias de outra pessoa e sair com a estranha certeza de que eram as suas também.
Ao mesmo tempo, Lost Weekend é o disco mais ousado que Phoebe Bridgers já fez. Embora seja sonoramente mais imprevisível do que seus discos anteriores, o álbum mantém a melancolia no som e no lirismo característicos do indie-folk da artista, que navega por sentimentos complexos com completa honestidade. Mais do que uma evolução, portanto, é uma recusa deliberada a se tornar algo mais palatável. Enquanto o indie e o folk alternativo se aproximam cada vez mais de formatos comerciais, Phoebe vai na direção oposta: mais densa, mais estranha, mais sua.
Há um verso no disco que ficou. “I can’t imagine you dead, but you are every day.” É uma frase simples. Não tem metáfora. Não tem ornamento. Só tem verdade. E é isso que Lost Weekend é, no fundo: um disco que preferiu a verdade ao polimento, a ferida ao curativo, o espaço aberto ao conforto fechado. É o melhor trabalho de Phoebe Bridgers.

GÊNERO: Indie Folk, Singer-Songwriter
GRAVADORA: Dead Oceans
DATA DO LANÇAMENTO: 14/08/2026
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