Crítica: Phoebe Bridgers se supera em “Lost Weekend”, seu álbum mais experimental

segunda-feira, 17 de agosto de 2026
por Arthur Rodrigues

Existe um tipo de disco que parece ter sido encontrado em vez de lançado. Lost Weekend, terceiro álbum solo de Phoebe Bridgers, é desse tipo. Ouvir as 16 faixas é como virar as páginas de um diário que não era para você ler, mas que alguém deixou aberto na mesa e do qual você não consegue tirar os olhos. É um álbum denso, sombrio e, por isso mesmo, surpreendentemente luminoso.

Phoebe Brdigers para seu álbum “Lost Weekend”. Imagem: Divulgação

Seis anos se passaram desde Punisher. Nesse intervalo, Phoebe lançou o aclamado projeto do supergrupo boygenius ao lado de Julien Baker e Lucy Dacus, perdeu o pai Tony Bridgers em dezembro de 2022 e iniciou um relacionamento com o comediante e músico Bo Burnham. Ao longo desse tempo, ela também se recusou a lançar algo antes de estar pronta. “Acho que a maioria dos músicos indie compõe por dois anos e lança um álbum, depois compõe por mais dois anos e lança outro; mas, se eu tivesse parado depois de dois anos ou algo assim, teria a sensação de estar caindo de um precipício”, explicou. Essa recusa em se apressar define o disco que chegou.

Produzido por Tony Berg, Ethan Gruska, Jack Antonoff e a própria Bridgers, com produção adicional de Alex G, o álbum é o mais experimentalista de sua carreira solo. Bridgers contou que teve muita inspiração na ambient music para compor o disco. “A canção que mais ouço por prazer é, provavelmente, ambient music, mas nem percebi a quantidade de elementos que havia no disco até que ele estivesse pronto”, disse. O resultado é um álbum que respira diferente dos anteriores. As canções têm espaço para existir. A produção não preenche o silêncio, ela o usa. Os arranjos sobem e descem de forma orgânica, e as texturas eletrônicas aparecem não como ornamentos, mas como estados emocionais. Há momentos de distorção que parecem o som do pensamento em colapso, e há momentos de uma leveza quase física, como se o disco soubesse quando descansar.

“The Outside” abre o disco com o uso de um vocoder, que concede um efeito robótico à voz de Phoebe. “Kill Me” reflete sobre o envelhecimento e a passagem do tempo, e o instrumental crescente leva o ouvinte a uma espécie de catarse emocional. Logo depois, “Lost Boys” alivia momentaneamente a tensão com uma melodia mais acessível, sem perder a carga das letras.

“The Governor’s Waltz” usa vocais suaves para rememorar o Governors Ball Festival de 2021 e o relacionamento conturbado com Mescal. A faixa ganhou repercussão por referenciar a atual namorada dele, Gracie Abrams. É um dos momentos mais dolorosos do disco, e também um dos mais precisos: Bridgers simplesmente descreve, e isso dói mais.

Em contrapartida, “Bobby” é a faixa mais animada de toda a discografia solo da cantora. É Bo Burnham em versão borboleta no estômago, em versão começo de algo que ainda não tem nome. “Kill Me” menciona Burnham (“Bobby, you taught me that I know nothing”) e “Liberty Tree” volta ao tema do relacionamento, mas é “Bobby” que soa diferente de tudo que Phoebe já gravou. É quase desconcertante ouvir algo tão leve num disco tão pesado, e é exatamente por isso que funciona.

O ponto mais alto do disco é “Still Standing”. A faixa é uma reflexão profunda sobre o luto pelo pai e os sentimentos conflitantes que surgiram com ele: arrependimento, tristeza, raiva, alívio, devido à relação complexa dos dois e as lembranças negativas da infância de Phoebe. “Feeling indifferent wearing black / Sometimes I want you back / But not today”, canta. É o tipo de verso que faz a mandíbula apertar involuntariamente.

“As Above” começa introspectiva e escala para gritos da cantora no final, ressoando canções como “I Know the End”, de Punisher. Em “Lost Weekend – Reprise”, Phoebe encerra o disco com aceitação do luto e da vida após a perda: “My dream comes true / A fantasy dies / But we’re gonna be alright”. O fim, como muitas outras faixas, é abrupto.

Lost Weekend não é um álbum fácil de ouvir. Não porque seja impenetrável, mas porque é honesto demais para deixar qualquer distância confortável entre o disco e quem escuta. Há algo nele que lembra um scrapbook sonoro: fragmentos de memórias, mensagens de voz do pai morto, letras que parecem anotações feitas às 3 da manhã. Ouvir o disco inteiro é como encontrar memórias de outra pessoa e sair com a estranha certeza de que eram as suas também.

Ao mesmo tempo, Lost Weekend é o disco mais ousado que Phoebe Bridgers já fez. Embora seja sonoramente mais imprevisível do que seus discos anteriores, o álbum mantém a melancolia no som e no lirismo característicos do indie-folk da artista, que navega por sentimentos complexos com completa honestidade. Mais do que uma evolução, portanto, é uma recusa deliberada a se tornar algo mais palatável. Enquanto o indie e o folk alternativo se aproximam cada vez mais de formatos comerciais, Phoebe vai na direção oposta: mais densa, mais estranha, mais sua.

Há um verso no disco que ficou. “I can’t imagine you dead, but you are every day.” É uma frase simples. Não tem metáfora. Não tem ornamento. Só tem verdade. E é isso que Lost Weekend é, no fundo: um disco que preferiu a verdade ao polimento, a ferida ao curativo, o espaço aberto ao conforto fechado. É o melhor trabalho de Phoebe Bridgers.


GÊNERO: Indie Folk, Singer-Songwriter

GRAVADORA: Dead Oceans

DATA DO LANÇAMENTO: 14/08/2026

 

 

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