Crítica: Anitta entrega a obra-prima de sua carreira com “EQUILIBRIVM II”
Anitta nunca pareceu tão segura da própria identidade artística quanto em “EQUILIBRIVM II”. Lançado na última quinta-feira (23), o novo álbum de estúdio reúne 17 faixas inéditas que exploram espiritualidade, ancestralidade, gratidão, fé, vulnerabilidade e autoconhecimento, além de abordar o corpo como espaço de expressão e cura.

Anitta nos bastidores do curta-metragem de “EQUILIBRIVM II”. Foto: Reprodução/Instagram.
A proposta de “EQUILIBRIVM II” vai além das canções. O álbum é acompanhado por um curta-metragem de 35 minutos que amplia sua narrativa por meio de uma sequência de visuais para diversas faixas. O álbum também representa uma virada na trajetória artística de Anitta ao fundir diferentes gêneros musicais e referências culturais com naturalidade. As participações especiais se integram organicamente à proposta do disco e evidenciam a sintonia entre a cantora e seus convidados. Assim como na primeira parte de “EQUILIBRIVM“, lançada em abril, o álbum reflete a busca da artista por equilíbrio, paz e saúde mental após enfrentar problemas de saúde provocados pelo ritmo intenso de trabalho.
Abrindo o disco, “Você Já Sabe” reúne novamente Anitta e o trio Los Brasileros, que também assina a produção de “Meia Noite”, faixa da primeira parte de “EQUILIBRIVM”. A canção une elementos do funk aos tambores do candomblé para exaltar exus e pombagiras, enquanto o arranjo constrói uma abertura impactante e estabelece o tom que conduz o restante do álbum.
O funk ganha protagonismo em “Sal Grosso”, parceria com o rapper KBrum. O sample de “Treinamento do Bumbum”, clássico de O Mandrake, adiciona um toque nostálgico à produção, enquanto influências do dancehall e do ragga ampliam sua identidade sonora. Inspirada em rituais de proteção e limpeza espiritual, a faixa une essa abordagem temática a uma produção pulsante.
Na sequência, “Não Me Cutuca” mergulha no forró com leveza e bom humor em colaboração com Alceu Valença. A canção celebra a tranquilidade e a escolha por uma vida distante de conflitos. A sintonia entre os dois artistas soa natural e resulta em um dos momentos mais cativantes do álbum.
A influência nordestina permanece em “Eu Não Sou Santa”, parceria com Mestrinho. A interpretação do cantor, compositor e sanfoneiro contribui para a construção de um forró marcado pela delicadeza, enquanto a faixa presta uma homenagem sensível à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil. A canção amplia o diálogo do álbum com diferentes manifestações da cultura brasileira.
Em “Feitiço”, Anitta mergulha novamente nas referências do candomblé por meio de um samba-pop em parceria com Mart’nália. A faixa incorpora um sample de “Botaram Feitiço”, de J. B. de Carvalho, e aborda o poder das encruzilhadas e a proteção proporcionada pela fé.
A paixão da família de Anitta pelo samba de gafieira é o ponto de partida de “Ponta do Pé”. A canção celebra essa ligação familiar com a dança de salão em uma homenagem a uma das manifestações mais tradicionais da cultura brasileira.
O reggae aparece em duas perspectivas diferentes em “Abre Caminho” e “Tudo Isso”, faixas que mostram a versatilidade de Anitta ao explorar o gênero por meio de diferentes abordagens.
Com participação de Alexandre Carlo, vocalista do Natiruts, “Abre Caminho” celebra relações construídas com liberdade e respeito, destacando a importância de viver os vínculos afetivos e familiares com mais leveza, sem cobranças ou dependência.
Em contraste com a faixa anterior, que explora um reggae mais dançante com elementos de forró, “Tudo Isso” apresenta uma abordagem mais cadenciada e intensa. A canção conduz uma reflexão sobre o desapego daquilo que já não acrescenta e sobre a escolha de viver sem depositar expectativas no outro.
A sensação de leveza presente no álbum ganha continuidade com a participação de MC Tha em “Sem Pressa”. Produzida novamente pelo trio Los Brasileros, a faixa destaca a importância de desacelerar, aproveitar os prazeres do cotidiano e encontrar motivos para agradecer mesmo diante de momentos difíceis.
Um dos destaques do disco surge em “Deus Mãe”, colaboração com KING Saints. A faixa presta uma homenagem às mães ao destacar a força feminina transmitida entre gerações e os laços construídos dentro da família. Essa mensagem aparece logo na abertura da canção, que incorpora um sample de “Plantadeira”, de Minuska Lima.
A espiritualidade que atravessa o álbum também se manifesta em “Ogum Me Rodeia”, colaboração com Leticia Fialho e Maria Bethânia, com a participação desta última na declamação de um poema em homenagem a Ogum. Associado a São Jorge no sincretismo brasileiro e reconhecido como patrono dos trabalhadores, o orixá se torna o tema central da canção, que explora a relação entre fé e cultura brasileira.
Já “Contemplação” se destaca como uma das faixas que mais aprofundam a relação do álbum com as tradições afro-brasileiras ao reunir Anitta e o Grupo Ofá, conjunto musical formado por integrantes da comunidade do Terreiro do Gantois, em Salvador. Construída como uma espécie de oração musicada, a faixa traz versos em iorubá e foi apontada pela própria Anitta como sua favorita do disco.
A vulnerabilidade aparece com mais intensidade em “Pra Você Gostar de Mim”, uma bossa nova melancólica em que Anitta presta homenagem a Carmen Miranda e reflete sobre os dilemas pessoais vividos ao longo de sua trajetória artística. Para isso, a cantora resgata a clássica marchinha carnavalesca “Pra Você Gostar de Mim (Taí)”, imortalizada pela Pequena Notável em 1930, estabelecendo um diálogo entre a trajetória da artista e os caminhos percorridos pela própria Anitta.
Em “Divino Sexual”, a relação entre desejo e espiritualidade ganha uma nova perspectiva, com uma reflexão sobre como esses elementos podem coexistir. A canção resgata visões em que o sexo esteve ligado ao divino em diferentes tradições ao longo da história, abordando essa prática não apenas como expressão física, mas também como uma experiência de conexão e transcendência.
Outro elemento recorrente do projeto, a afetividade aparece em “Azul”, versão em espanhol do clássico de Djavan. A releitura preserva a delicadeza da composição original e funciona como uma homenagem ao público hispanofalante de Anitta, mas destoa da proposta central do álbum ao incluir uma canção em outro idioma em um trabalho dedicado a exaltar a cultura brasileira.
O caráter confessional do álbum ganha contornos mais íntimos em “Respira”. Originalmente escrita em espanhol e posteriormente traduzida para o português pela própria Anitta, a faixa revisita momentos da trajetória da artista e os desafios enfrentados ao longo da carreira. “Ela veio da favela / Elegante apareceu na sua tela / Mas todo mundo só falou da bunda dela” é um dos versos que sintetizam a reflexão sobre a forma como parte da sociedade passou a enxergar a cantora.
Fechando o álbum, “OKE” conta com a colaboração do grupo de rap Brô MC’s, formado por artistas indígenas Guarani-Kaiowá, e da rapper Katú Mirim, descendente do povo Boe Bororo. Ao combinar funk e música eletrônica, a faixa promove um encontro entre sonoridades contemporâneas e a valorização dos povos indígenas.
Se a unificação de “EQUILIBRIVM” e “EQUILIBRIVM II” nas plataformas digitais representa um deslize, ela não compromete a grandeza do trabalho. Raros são os discos capazes de reunir tantas referências sem perder a própria essência. O resultado é uma obra que consolida “EQUILIBRIVM II” como o ponto mais alto da carreira de Anitta.
Nota: 9,0/10
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Tá na boca do povo:



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