Crítica: Feid revisita o reggaeton melódico e reafirma sua evolução em “El Club De Las 19 Flores”

segunda-feira, 21 de setembro de 2026
por Alice Arruda

Na última quinta-feira (17), Feid lançou “El Club De Las 19 Flores”, segundo ato de El Green Print, saga composta por quatro EPs. Inspirado por uma fase marcante de sua trajetória, o trabalho recupera elementos da sonoridade de “19”, seu segundo álbum de estúdio, que lhe rendeu a primeira indicação ao Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Música Urbana.

Feid em imagem promocional do EP "El Club De Las 19 Flores". Foto: Divulgação

Feid em imagem promocional do EP “El Club De Las 19 Flores”. Foto: Divulgação

O número 19 faz referência à sua data de nascimento, ao ano de lançamento de seu segundo disco e ao apartamento onde compôs os primeiros sucessos. A simbologia abre caminho para um EP que recupera uma fase importante de sua trajetória sem transformar a nostalgia em sua principal proposta.

Em “19”, Feid combinava reggaeton melódico, influências de R&B e letras íntimas. Em “El Club De Las 19 Flores”, esses elementos reaparecem sob a ótica de um artista que consolidou seu espaço na música latina e alcançou maior liberdade criativa ao assumir o controle de seus masters e fundar a própria gravadora.

Ao longo de oito faixas, Feid reúne diferentes gerações do reggaeton e da música urbana. O trabalho reúne nomes fundamentais para a história do gênero, como Yandel, Divino e Baby Ranks; nomes consolidados em outros segmentos, como Vicente Garcia; e expoentes da nova cena, como Bad Gyal, El Americano 4KT e Pirlo.

A seguir, confira o faixa a faixa de “El Club De Las 19 Flores”.

Iniciando o EP, “A Xon De Que” foi escolhida como primeiro single e estabelece conexão imediata com a estética de “19”. A faixa explora o reggaeton melódico e o urbano latino para contar a história de uma relação sem compromisso formal, mas emocionalmente significativa, interrompida por um afastamento repentino. O estranhamento de ser tratado como um desconhecido por alguém com quem já se teve intimidade dá à música uma camada de vulnerabilidade que vai além da narrativa romântica convencional.

A saudade ganha outro contorno em “BORRAXXO Te Esperaré”, na qual Feid divide os vocais com o dominicano Vicente Garcia para narrar o desejo de reatar um relacionamento. O personagem recorre ao álcool para lidar com a ausência da pessoa amada, enquanto o ciúme intensifica o conflito emocional. Garcia acrescenta uma textura caribenha ao arranjo, em contraponto à estética urbana de Feid. A química entre os artistas mostra como referências distintas podem se complementar com naturalidade.

Uma das surpresas aparece em “PARADIXE”, parceria com El Americano 4KT e Pirlo. A faixa une trap e reggaeton em uma produção marcada por graves pesados e mudanças de ritmo. A ostentação surge como tentativa de mascarar a dor do término, criando um contraste entre a autoconfiança de fachada e a vulnerabilidade da narrativa. Ao se unir à nova geração da música urbana, Feid conecta diferentes vertentes do gênero sem forçar uma postura mais próxima do rap, explorada no EP “El Moco Verde”, preservando sua identidade enquanto permite que os convidados ganhem protagonismo lírico.

Em “SE PUSO FEO”, Feid se junta a Divino e Baby Ranks, dois pioneiros do reggaeton. A faixa narra um encontro casual durante uma festa que rapidamente se transforma em uma história de atração imediata, com uma abordagem descontraída e sensual. A colaboração conecta o passado e o presente: de um lado, veteranos do gênero; do outro, um artista que incorpora essa herança a uma produção contemporânea. Assim, o resgate das raízes acontece não apenas pelo som, mas pelo encontro histórico de gerações.

Já “HAXTA EL DIA FINAL” traz uma fusão de reggaeton melódico e elementos tropicais para abordar lealdade e permanência. Com atmosfera noturna, a metáfora de dançar com a pessoa amada até o fim dos tempos transforma a pista de dança em símbolo de um vínculo inabalável. A faixa recupera o lado mais romântico do artista e reforça sua versatilidade no EP.

A primeira parceria de Feid com a espanhola Bad Gyal acontece em “DE DIOR XL”, reforçando o diálogo do colombiano com a cena urbana contemporânea. Na faixa, Feid reflete como grifes, luxo e fama, vistos como símbolos de status, são incapazes de preencher o vazio deixado pela ausência da pessoa amada. A repetição da ideia de estar vestido de Dior ultrapassa a mera ostentação: a marca funciona como uma armadura emocional para esconder a vulnerabilidade. Já Bad Gyal contrapõe essa narrativa com a perspectiva feminina da independência e superação, priorizando o trabalho e a ascensão financeira em vez do relacionamento.

O ponto alto do EP é “TIEMPO SIN VXRTX”, em parceria com a dupla de produtores ICON, com quem Feid já colaborou em “Purrito Apa” e “FERXXO 151”. A faixa funde o urbano latino ao reggaeton experimental, enriquecido pela participação da Orquesta Filarmónica de Medellín, que dá uma dimensão grandiosa à produção. Liricamente, explora a saudade e a expectativa de um reencontro através de uma interpretação direta e sensual, sem recorrer ao melodrama.

Para encerrar, “PENXAMIENTOS DE MADRUGADA” é a faixa em que Feid se junta a Yandel, seu ídolo e figura histórica do reggaeton. A música mergulha na solidão da madrugada e na dor que a ausência da pessoa amada provoca, dando continuidade a uma parceria de sucesso que já gerou hits como “Yandel 150” e “Brickell”. O trabalho termina em uma atmosfera melancólica que resgata um dos sentimentos mais presentes ao longo de todo o EP: a saudade.

Ao revisitar o reggaeton melódico que marcou o início de sua carreira, Feid mostra como essa sonoridade pode ganhar novos contornos. Se antes o colombiano ainda buscava consolidar sua identidade, hoje desfruta de um reconhecimento que transcende as fronteiras da música latina e pode explorar sua criatividade sem precisar provar seu valor. Em “El Club De Las 19 Flores”, o retorno à sua essência não se sustenta na nostalgia, mas na maturidade de um artista que transformou suas referências em ponto de partida para experimentar, expandir sua sonoridade e olhar para o futuro sem abandonar as raízes que moldaram sua trajetória.

NOTA:

 

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