Crítica: Rebecca Black transforma “Age of the Exhibitionism” em seu maior espetáculo
Se existe uma coisa que Rebecca Black aprendeu ao longo da última década, é a transformar o próprio passado em combustível criativo. Depois de Friday, lançada em 2011 e frequentemente lembrada como uma das músicas mais abomináveis da internet, Black passou anos reconstruindo sua identidade artística, experimentando diferentes sonoridades e, principalmente, provando que havia muito mais por trás daquele primeiro fenômeno viral. Em Age of the Exhibitionist, essa trajetória finalmente encontra seu ápice.

Rebecca Black para a capa de “Age of the Exhibitionist”. Imagem: Divulgação.
Evolução artística de Rebecca
Ao longo de 12 faixas, Rebecca entrega o melhor projeto de sua carreira e um dos trabalhos mais interessantes do ano. O álbum parte do electropop e do hyperpop, mas não se limita às fronteiras desses gêneros. Diversas influências aparecem na produção, criando uma sonoridade única que se difere da homogeneidade que está presente em muitos álbuns de pop eletrônico nos últimos tempos.
As músicas têm identidade própria, mas funcionam dentro de um conjunto coeso. “Wet, Hot, Delirious”, single já lançado anteriormente, mistura o electropop com o New Jack Swing dos anos 80. “Michael”, traz elementos do house progressivo com sintetizadores nada convencionais. “Pistol”, é um revival do trip-hop e “Miss Delicious” remete diretamente a identidade já conhecida de Rebecca vista em músicas como “Sugar Water Cyanide”. Não há uma faixa que pareça deslocada ou que dê vontade de pular, algo especialmente impressionante em um projeto que transita por tantas referências.
Mais do que uma reinvenção, Age of the Exhibitionist funciona como a conclusão de um processo de descoberta artística que começou há anos. Depois de Friday, Rebecca foi lentamente se afastando da imagem construída ao seu redor e encontrando uma linguagem própria. Cada trabalho posterior parecia acrescentar uma nova camada à sua identidade, até que agora todas essas experiências convergem em um álbum que soa seguro de si e artisticamente ambicioso. Seu último projeto, o EP “Salvation”, de 2024, teve justamente como divulgação principal do lead single “TRUST!” esse rebranding artístico de Rebecca, como é visto no videoclipe da canção.
Manifesto Queer contemporâneo
Sobretudo, “Age of the Exhibitionism” se firma como um álbum queer e que incorpora a cultura LGBTQ+ ao longo de toda sua essência. E não, não estamos falando do famigerado “Cuntyslop Music” onde uma mulher hétero canta sobre ser mãe dos gays. O exibicionismo atua aqui como figura de linguaem que vai além de apenas se colocar em evidência, mas pode ser interpretado como uma metáfora para exibir, sem amarras, sua versão mais autêntica. Aquela que não precisa se adequar às expectativas da sociedade, ao conservadorismo moderno ou à imagem que outros construíram sobre ela.
Se há uma coisa que impede o álbum de alcançar uma nota ainda maior, são as letras. Musicalmente, Black parece completamente disposta a se expor, mas essa exposição nem sempre se traduz em vulnerabilidade emocional. Falta, em alguns momentos, aquela sensação de que estamos realmente acessando algo íntimo por trás da persona. É um contraste curioso com outros grandes álbuns eletrônicos recentes, como brat de Charli xcx e Worst Girl in America de Slayyyter, que conseguem transformar inseguranças e contradições pessoais em parte fundamental de sua força narrativa.
Apesar disso, essa limitação não diminui o impacto do projeto. Age of the Exhibitionist é um álbum que entende exatamente o que quer ser: camp, queer, clubber, imprevisível e profundamente pop. Rebecca Black finalmente encontrou o seu som e ele é melhor do que qualquer um esperava.
GÊNERO: Electropop, Dance-Pop
GRAVADORA: Lançamento Independente
DATA DO LANÇAMENTO: 04/09/2026
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