Crítica: “True Blue” completa 40 anos como o disco mais refinado dos anos 80 de Madonna
Em comemoração ao lançamento de “Confessions II“, durante esta semana revisitaremos a discografia de Madonna. Nesta terça-feira (30), “True Blue” completa 40 anos de lançamento e faremos uma análise de como o álbum permanece um marco na cultura pop.

Capa do “True Blue” (1986) de Madonna. Imagem: Reprodução
Em 1986, o pop vivia sob o peso do próprio sucesso. Os sintetizadores dominavam tudo, as baterias eletrônicas ditavam o ritmo das rádios e a indústria ainda tentava entender o que fazer com a geração de artistas que o MTV havia criado. Madonna, por sua vez, havia acabado de colocar o nome no mapa com “Like a Virgin” e estava no centro de um furacão cultural. Casada com Sean Penn desde agosto de 1985 e vivendo sob pressão constante da mídia, ela chegou ao terceiro álbum num momento pessoal turbulento. “True Blue”, lançado em 30 de junho de 1986, é o disco que saiu desse turbilhão. E é o melhor dos seus anos 80.
A produção
Para “True Blue”, Madonna trabalhou principalmente com dois produtores: Patrick Leonard e Stephen Bray, seu colaborador de longa data.
Juntos, os três construíram um som que abandonou parte da frieza eletrônica dos álbuns anteriores e apostou em arranjos mais quentes, com cordas, percussão orgânica e guitarras acústicas dividindo espaço com os sintetizadores. O resultado é um pop de textura mais rica, que soa adulto sem perder o instinto de pista. Madonna assumiu o papel de produtora executiva e, pela primeira vez, esteve envolvida em praticamente todas as decisões criativas do disco, desde a escolha das músicas até os arranjos finais.
As faixas
“Papa Don’t Preach” abre o álbum e ainda hoje causa impacto. A faixa coloca em cena uma jovem que enfrenta os pais para manter uma gravidez. Em 1986, o tema era tratado como tabu. Grupos anti-aborto e grupos pró-escolha a atacaram ao mesmo tempo, cada lado interpretando a música a seu favor. Madonna não recuou. A produção mistura cordas dramáticas com uma base de rock, e o resultado é uma canção pop que se recusa a ser simples.
“Open Your Heart” vem na sequência e entrega o contraponto necessário: groove limpo, sintetizadores brilhantes e um refrão que não sai da cabeça. O clipe, filmado num peep show, gerou polêmica própria, mas a música em si é das mais eficientes do disco. “White Heat” é um rock com referências ao ator James Cagney, funcional dentro do corpo do álbum sem ser um destaque particular.
“Live to Tell“, porém, é outra conversa. A faixa foi composta para o filme “At Close Range“, estrelado por Sean Penn, e gravada antes do resto do álbum. É a balada mais contida e mais densa que Madonna havia feito até então. A voz soa diferente aqui, mais grave, mais controlada, e a produção de Patrick Leonard abre espaço para que cada palavra respire. É o ponto mais alto do disco.
“Where’s the Party” e “Jimmy Jimmy” representam os momentos mais soltos do álbum, com pegada de festa e referências ao girl group pop dos anos 60. Entretanto, são as faixas mais datadas do projeto, mas também as mais despojadas. Cumprem seu papel sem destaque. “True Blue”, a faixa-título, é outra homenagem ao pop dos anos 60, com vocais em coro e uma melodia que parece existir há sempre.
“La Isla Bonita” é uma das escolhas mais ousadas do disco. A faixa incorpora violão espanhol, percussão latina e uma estrutura melódica que não tem paralelo no catálogo anterior de Madonna. Não era apenas uma incursão curiosa: era um sinal do que viria depois, em “Like a Prayer” e além. “Love Makes the World Go Round” encerra o álbum com um apelo pela paz, gravada em contexto do Dia da Consciência Nuclear. Funciona bem como fechamento, mesmo que não alcance a força das melhores faixas.
O veredito
“True Blue” é o disco mais maduro de Madonna até aquele ponto. A voz ganhou profundidade. As letras, por sua vez, passaram a tocar em temas reais, gravidez, desejo, perda, paz, sem perder o senso pop que sempre definiu seu trabalho. Logo, o som também ficou mais interessante: é um pop adulto que conversa com o girl group, o rock e a música latina ao mesmo tempo, sem soar disperso. Além disso, há uma coesão aqui que os dois primeiros álbuns não tinham. Uma música ou outra ainda escorrega para um território genérico, mas o corpo do disco é sólido e, em seus melhores momentos, é excelente.
Contudo, quarenta anos depois, “True Blue” permanece como o marco dos anos 80 de Madonna. Não porque seja perfeito, mas porque mostra uma artista que aprendeu a usar cada ferramenta à sua disposição: a provocação, a melodia, a produção e a performance. O disco que completa quatro décadas hoje não saiu de moda. Ele apenas ficou mais claro com o tempo.
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