Lady Gaga é capa da Rolling Stone e fala sobre vulnerabilidade, amor e o álbum “MAYHEM”

quinta-feira, 13 de novembro de 2025
por Alice Arruda

A revista Rolling Stone divulgou nesta quinta-feira (13) a capa de sua edição “Vozes do Ano”, estrelada por Lady Gaga. Fotografada por Greg Swales, a artista falou sobre o processo criativo de seu mais recente álbum “MAYHEM”, a “The Mayhem Ball Tour” e aspectos de sua vida pessoal.

Lady Gaga é capa da Rolling Stone. Imagem: Divulgação.

Lady Gaga é capa da Rolling Stone. Imagem: Divulgação.

Ser uma estrela pop globalmente famosa significa lidar com uma rotina exaustiva e uma agenda repleta de compromissos. O excesso de trabalho, muitas vezes, cobra caro da saúde física e mental. Gaga revelou que, durante a “Joanne World Tour“, viveu um colapso psicótico:

Teve um dia em que minha irmã disse: ‘Eu não vejo mais a minha irmã’. E eu cancelei a turnê. Fui internada para tratamento psiquiátrico. Precisava parar. Não conseguia fazer nada… eu desmoronei completamente. Foi assustador. Houve um tempo em que achei que não iria melhorar… Me sinto muito sortuda por estar viva. Pode soar dramático, mas sabemos como essas histórias podem terminar.”

Após anos turbulentos, Lady Gaga, nascida Stefani Joanne Germanotta, encontrou equilíbrio ao lado do empresário Michael Polansky, formado em Harvard e hoje seu noivo:

Estar apaixonada por alguém que se importa com quem eu realmente sou fez toda a diferença”, diz.

Como aprender a ser você mesma com alguém, quando você nunca soube ser você mesma com ninguém?

Em março, Gaga lançou “MAYHEM”, seu sétimo álbum de estúdio, que marca sua reconciliação com a própria essência artística. O disco — aclamado pela crítica — inclui os hits “Die With A Smile” e “Abracadabra”, e rendeu sete indicações ao Grammy 2026, incluindo Álbum do Ano.

Foram meses e meses redescobrindo tudo o que eu havia perdido”, conta. “E acho que é por isso que se chama Mayhem, porque o que foi preciso para recuperá-lo foi uma verdadeira loucura.”

A turnê The Mayhem Ball, uma das mais grandiosas de sua carreira, evidencia o amadurecimento da artista:

Não sou mais viciada em adrenalina”, revela. “Vejo todos os fãs, estou nesse vestido enorme, a música está altíssima e é tudo tão dramático… e por 90 segundos, preciso me convencer a não ter um ataque de pânico.”

Gaga também comentou a rejeição ao filme Joker: Folie à Deux, no qual interpretou Harley Quinn. Apesar dos elogios à sua atuação, a artista admitiu que o videoclipe de “Disease” foi uma resposta às críticas:

Eu coloquei toda aquela energia nesse vídeo. Era como se eu dissesse: ‘Vou mostrar quem eu sou e o que essa luta significa.’”

O processo, porém, teve impacto emocional profundo:

Quando terminamos de filmar, entrei num estado mental bem pesado. Acho que assustei a mim mesma. Por semanas fiquei incomodada. Aquilo não saía da minha cabeça… Há uma parte de mim que tem medo da outra parte. E acho que percebi que ainda não tinha terminado de me curar.”

A cantora também refletiu sobre o impacto da rejeição ao álbum “ARTPOP”:

Sim, teve um impacto enorme. Foi muito mais profundo do que qualquer outra crítica que já recebi. Aquilo foi difícil… foi a primeira vez que eu tive uma grande rejeição a uma obra minha.”

Eu coloquei tudo de mim em ARTPOP. Foi o meu épico eletrônico, o meu opus de EDM. Mas também foi uma época muito caótica. Às vezes é difícil se firmar no chão quando ele está afundando, entende?

Ela reconhece que as decisões em torno do projeto não agradaram ao público:

As pessoas não gostam quando eu digo: ‘Não vou me vestir do jeito que vocês querem. Não vou usar o cabelo que vocês querem. E não vou fazer pop do jeito que vocês querem. Vocês querem que tudo soe como Bad Romance, e eu nunca mais vou fazer isso.’”

Com o tempo, Gaga passou a enxergar com clareza o machismo e a desumanização da indústria musical:

Quando artistas homens se recusam a se repetir, são celebrados como visionários. Ninguém exige que eles se agarrem aos louros do sucesso anterior. Comigo, me trataram como se eu tivesse acabado. Quando eu virei um grande negócio, a prioridade deixou de ser garantir que eu tivesse uma experiência artística digna e passou a ser me fazer lucrar o mais rápido possível.”

Após um período conturbado, Gaga decidiu retomar o controle criativo, com o apoio de Tony Bennett e Bradley Cooper:

Uma das maneiras que encontrei de me afastar de conversas difíceis foi abrindo meu próprio caminho. Continuei criando espaços onde eu pudesse estar no controle. ‘Talvez, se eu fizer isso, eu deixe de ser um objeto.’”

Eu jamais teria feito MAYHEM sem os 10 anos de experiência que tive”, reflete. “Como seria Mayhem se eu não tivesse me tornado uma cantora de jazz? Ou se eu não tivesse feito ARTPOP?

Após anos de reinvenção, Gaga retornou ao pop em 2020 com “Chromatica”. Embora tenha carinho pelo disco, o encara como um período de transição:

Chromatica foi muito literal, porque era tudo o que eu tinha. Eu meio que perdi a poesia dentro de mim. É como se alguém perguntasse: ‘Como você está?’, e você dissesse: ‘Tô uma merda’. O espírito de Chromatica era ser esperançosa mesmo quando você não está.”

MAYHEM“, por sua vez, nasce de uma Gaga transformada:

Eu estava disposta a revisitar todos os pesadelos do meu passado e do meu presente, e encontrar poesia em cada um deles. Precisei cavar muito fundo, mudar muita coisa na minha vida e me recentrar no que eu realmente precisava como ser humano.”

Entre as faixas, “Blade Of Grass” se destaca por narrar o pedido de casamento feito por Polansky, que usou um fio de grama para simbolizar o momento. Gaga revelou que guarda a lembrança até hoje. Sua mãe, Cynthia Germanotta, apresentou o empresário à filha:

Minha mãe achava que seríamos um bom par, ou pelo menos que eu ficaria encantada com ele.

A lembrança emociona a cantora:

É especial lembrar disso, porque, naquela época, muitas pessoas ao meu redor só queriam se divertir. As pessoas amavam a Lady Gaga bêbada.”

Ele entendeu imediatamente a seriedade das coisas pra mim”, conclui.

Gaga também comentou as diferenças políticas com o pai, um conservador apoiador de Donald Trump, enquanto ela se define como uma democrata convicta:

Eu tento focar na nossa relação fora do que discordamos. Somos uma família, como qualquer outra.”

Ela recorda que conheceu Polansky enquanto finalizava “Chromatica”, uma fase de fragilidade emocional:

Eu fumava três maços de cigarro por dia e passava o dia inteiro sentada na varanda. Ia começar as entrevistas de Chromatica dizendo que estava em um ótimo momento, mas na verdade eu estava tão bem quanto alguém que fuma maconha o dia todo, toma umas garrafas de vinho e apaga.”

Pouco depois, com o início da pandemia, Polansky se tornou um porto seguro:

Ele quis cuidar de mim. E eu nunca tinha sido amada desse jeito. Minha vida era algo sério pra ele. Não era uma festa. Ele me ajudou a perceber que minha vida era preciosa.”

Encerrando a entrevista, Gaga revelou que o casal pretende se casar em breve, em uma cerimônia íntima, e que deseja realizar o sonho da maternidade:

Ser mãe é o que eu mais quero”, confessa. “E ele vai ser um pai maravilhoso. Estamos muito animados com isso.”

Entre a dor e a poesia, Lady Gaga renasce com lucidez, vulnerabilidade e arte — provando que, mesmo no caos, ainda há beleza e força para recomeçar.

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