Na capa da Vogue, Rosalía fala sobre “LUX” e seu carinho pelo Brasil

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
por Alice Arruda

Rosalía estampa a capa da edição de primavera da Vogue norte-americana e reafirma sua posição como uma das artistas mais inventivas da música contemporânea. Em entrevista à revista, a cantora fala sobre seu mais recente álbum, “LUX“, seu carinho declarado pelo Brasil e os primeiros detalhes de sua nova turnê mundial.

Rosalía é capa da edição de primavera da revista Vogue. Imagem: Divulgação.

Rosalía é capa da edição de primavera da revista Vogue. Imagem: Divulgação.

LUX“, quarto álbum de estúdio da artista, foi lançado em novembro de 2025 e rapidamente se consolidou como um dos discos mais aclamados do ano. O projeto desponta como um forte candidato ao prêmio de Álbum do Ano no Grammy Awards 2027. Ao longo de 17 faixas, Rosalía canta em 14 idiomas e alcança registros vocais extremos em uma fusão ambiciosa entre música clássica e pop, ajudando a conduzir a música erudita ao centro do mainstream contemporâneo.

Os arranjos de cordas, grandiosos e cinematográficos, foram executados pela Orquestra Sinfônica de Londres, com arranjos assinados por Caroline Shaw, compositora vencedora do Prêmio Pulitzer que trabalhou em “A Vida de Pablo“. O disco também conta com vocais de fundo litúrgicos e atmosféricos, muitos deles interpretados pela Escolania de Montserrat, um dos coros de meninos mais antigos da Europa, sediado no Mosteiro de Montserrat, na Catalunha.

A principal razão para Rosalía cantar em tantos idiomas em “LUX” está na origem conceitual do álbum. Quinze das 17 canções foram inspiradas em histórias de santas e místicas. Durante um ano de isolamento criativo, a artista se dedicou exclusivamente à escrita das letras antes de compor qualquer melodia, período em que estudou hagiografias.

Muitas dessas santas eram freiras, e achei fascinante aprender sobre suas vidas, sobre como elas se expressavam”, disse ela. “Elas tinham uma experiência com Deus e a explicavam com palavras. Simplesmente falando. Era outra forma de conhecimento, não é? Outra maneira de compreender o divino.” Após uma pausa, completou: “E sinto que hoje em dia muitas pessoas citam celebridades, e celebridades citam outras celebridades. Eu prefiro citar santos.

Na capa de “LUX“, Rosalía surge usando um adorno de cabeça branco que remete a um hábito de freira, criado pela Maison Margiela. Abaixo, seu torso é envolvido por uma peça branca elástica, sem aberturas para os braços. A camisa, assinada por Alainpaul, evoca uma camisa de força. “Eu estava tentando encontrar uma imagem que simbolizasse a espiritualidade feminina”, explicou a artista. “Para mim, esta foi a que conseguiu traduzir a sonoridade deste álbum, sobre o que ele trata, de onde eu estou cantando e a inspiração por trás dele.

Nascida em Sant Esteve Sesrovires, na Catalunha, na Espanha, Rosalía descreve sua cidade natal como um espaço de contrastes marcantes. “É uma vila com muita natureza. Muita floresta. Linda. Mas também com muitas fábricas”, afirmou, ao se referir às indústrias. “Uma área industrial ao redor. Muitos caminhões. Lembro-me, desde criança, de sempre correr pela floresta.

Filha de Pilar, que trabalhava em uma empresa familiar de fabricação de placas de metal, e de José Manuel, atuante no setor da construção civil, Rosalía associa a música aos momentos de descanso da família. Ela sabia que era fim de semana quando seus pais colocavam para tocar David Bowie, Queen, Supertramp e Prince. “Minha mãe me apresentou Kate Bush desde que eu era muito pequena”, contou. “Eu não dava muita importância, mas com o tempo, passei a gostar. Eu gosto muito daquela música em que ela fala sobre a possibilidade de trocar de lugar com Deus. Um pacto com Deus. Sempre me fazia chorar.

A relação de Rosalía com o catolicismo antecede “LUX” e remonta à infância, quando sua avó materna a levava à igreja junto da irmã e dos primos. “Minha avó Rosalía, por parte de mãe, levava minha irmã, meus primos e eu à igreja. Talvez uma vez por ano, uma vez a cada dois anos. Era algo especial.

Em 2011, aos 19 anos, a cantora percorreu o Caminho de Santiago, no norte da Espanha, em uma peregrinação de 33 dias. Durante a jornada, refletiu sobre seu desejo de se tornar musicista profissional. “Eu pensava: se eu conseguir fazer este Caminho do começo ao fim, isso será um sinal de que mais tarde poderei me dedicar à música.

A reinvenção constante é um dos princípios que norteiam a carreira de Rosalía. Em “LUX“, ela impôs a si mesma uma nova regra criativa: nada de loops. O objetivo era reduzir o tempo diante do computador e priorizar a fisicalidade da música, utilizando instrumentos e a própria voz de forma mais orgânica.

Eu queria que fosse mais físico”, afirmou. “Música em seu estado físico. Isso pode ser instrumentos, objetos. Pode ser humano. Pode ser o ar, o metal, a madeira. E a orquestra, de certa forma, sinto que talvez seja a versão mais monumental disso. Da música em sua forma física.

A artista também comentou seu carinho pelo Brasil. “Eu amo o Brasil”, disse. “Acho muito inspirador. Adoro estar na praia lá. Adoro a música. Sou muito fã de Caetano Veloso e Elis Regina.Rosalía relembrou sua passagem recente pelo Rio de Janeiro, no fim de novembro, quando participou de uma festa de audição de “LUX” sob a estátua do Cristo Redentor, de 38 metros de altura, embora tenha permanecido na cidade por apenas um dia. “Então eu realmente não conseguia entender o que é o Rio, e eu queria entender”, explicou. “Eu realmente queria vivenciar o Ano Novo no Brasil de uma forma especial.

A nova fase da artista ganhará os palcos a partir de 16 de março, quando Rosalía dá início à LUX Tour em Lyon, na França. “Estamos em ensaios agora”, disse. “Estamos começando a construir o espetáculo.” Questionada sobre a presença de uma orquestra na turnê, foi cautelosa. “Ainda não posso dizer. Posso dizer que definitivamente haverá experimentação e, espero, rigor e descontração ao mesmo tempo.” Ela concluiu: “Será muito diferente da turnê Motomami.”

Ao unir espiritualidade, experimentação sonora e rigor artístico, Rosalía transforma “LUX” em mais do que um álbum: um manifesto estético que reafirma sua capacidade de expandir os limites da música pop contemporânea.

 

Você também vai querer ver
voltar