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Por que Fernanda Young ainda faz sentido para quem tem 20 anos hoje

sexta-feira, 17 de julho de 2026
por Arthur Rodrigues

Fernanda Young morreu em 25 de agosto de 2019, aos 49 anos, durante uma crise de asma seguida de uma parada cardíaca. Ela estava em Gonçalves, Minas Gerais, e estava prestes a estrear numa peça de teatro em São Paulo. Naquele mesmo ano, havia lançado “Shippados”, sua última série. E “Pós-F, Para Além do Masculino e do Feminino”, que ganharia o Jabuti de forma póstuma. Fernanda foi embora no meio de muita coisa ainda acontecendo. Talvez por isso ela nunca tenha saído completamente.

O documentário “Fernanda Young: Foge-me ao Controle” a apresentou a quem não conhecia ela e para lembrar quem já sabia. Nos últimos meses, o nome dela voltou a circular nas redes, especialmente entre jovens que a descobriram tarde. Porém, é reconhecimento acima da nostalgia. E vale a pena entender por quê.

Fernanda Young. Imagem: Reprodução

Fernanda Young. Imagem: Reprodução

A televisão como território

Fernanda começou na televisão em 1995, como roteirista de “A Comédia da Vida Privada”, na Globo. Mas foi entre 2002 e 2003, no Saia Justa, no GNT, que ela ganhou uma cara pública. Ao lado de Rita Lee, Mônica Waldvogel e Marisa Orth, ela integrou a primeira formação do programa, que reunia quatro mulheres para debater comportamento, cultura, política e tudo que a televisão brasileira normalmente colocava de lado quando o assunto eram mulheres falando sem filtro.

O Saia Justa foi um programa que recusou o formato de revista feminina convencional. Não havia dicas de beleza, maridos e dietas no centro. No lugar disso, havia opinião, discordância e humor ácido. Fernanda era a mais doidona do time, a que mais incomodava, a que dizia o que as outras ainda estavam formulando. Depois da primeira temporada, ela seguiu no GNT com “Irritando Fernanda Young”, programa de entrevistas com celebridades que durou de 2006 a 2010, e depois com “Confissões do Apocalipse”, em 2012, onde entrevistou figuras conhecidas tendo como pano de fundo o fim do mundo previsto pelos maias. O formato absurdo era intencional. Fernanda sempre soube que o nonsense é uma forma de verdade.

Além disso, no caminho ainda vieram “Odeio Segundas” e “Surtadas na Yoga”, ambos no GNT. Ela também foi duas vezes indicada ao Emmy Internacional de melhor comédia, por “Separação?!” (2010) e “Como Aproveitar o Fim do Mundo” (2012). São 15 séries para televisão ao longo da carreira. Nenhuma delas parece ter sido feita por obrigação.

Os Normais e o relacionamento pós-ditadura

“Os Normais” estreou em 2001 e ficou dois anos na TV Globo, gerando dois longas-metragens e se tornando o trabalho mais reconhecido de Fernanda. Escrita em parceria com Alexandre Machado, a série acompanhava Rui e Vani, vividos por Luiz Fernando Guimarães e Fernanda Torres, um casal de namorados que morava em apartamentos separados e navegava o cotidiano de um relacionamento urbano com toda a sua neurose e comédia involuntária.

O Brasil de 2001 era um país que ainda digeria a redemocratização. A classe média carioca que “Os Normais” retratava havia saído de décadas em que a vida privada era regulada, pelo menos simbolicamente, por um conservadorismo imposto. E agora havia liberdade, mas não havia manual. Como se relacionar quando ninguém mais sabe ao certo o que se espera de cada um? Rui e Vani não tinham respostas. Eles apenas continuavam, errando e tentando de novo. Fernanda Torres disse certa vez que Vani era o alter ego de Fernanda Young. Olhando para Vani, é fácil acreditar nisso: neurótica, apaixonada, engraçada de um jeito que dói um pouco.

Young fala de amor, solidão e morte de maneira moderna. Não reinventando esses sentimentos, mas relocalizando-os no tempo. Em Os Normais, o relacionamento aparece com toda a ansiedade da classe média carioca dos anos 2000: o medo de comprometimento, o cinismo afetivo, a dificuldade de dizer o que se sente sem parecer idiota. Rui e Vani são pessoas tentando, errando e continuando mesmo assim.

Os Normais. Imagem: Divulgação/ TV Globo

Os Normais. Imagem: Divulgação/ TV Globo

Shippados e o amor na era das redes

Dezoito anos depois, em “Shippados”, Fernanda entendeu o que o jovem passa com o dilema das redes sociais e como nos relacionamos num período em que a solidão é mais brava que nunca. A série estreou no Globoplay em maio de 2019, com Tatá Werneck e Eduardo Sterblitch nos papeis principais. Rita e Enzo se encontram num bar, depois de largarem encontros desastrosos via aplicativo. Cada episódio tem nome de gíria da internet. O amor, portanto, ainda é o tema. Mas o cenário mudou completamente.

Em 2019, relacionar-se significava também gerenciar presença online, interpretar ausência de resposta, calibrar o quanto se expõe e para quem. A solidão que Shippados retratava não era a solidão de quem não encontra ninguém. Era a solidão de quem está cercado de conexões e ainda assim se sente desconectado. Fernanda entendeu isso antes de muita gente. O desconforto de existir e se relacionar continuava o mesmo de Os Normais. Só o vocabulário havia mudado.

Os livros e o que a televisão não cabia

Fernanda publicou mais de dez livros ao longo da vida. Estreou em 1996 com “Vergonha dos Pés” e chegou ao fim da carreira com uma obra que não cabe em uma prateleira só: romances, poesia, não-ficção, crônicas e ilustrações próprias. Em 2016, ao completar 20 anos de carreira, lançou dois títulos ao mesmo tempo: “A Mão Esquerda de Vênus”, de poesia, e “Estragos”, de contos.

Mas foi “Pós-F, Para Além do Masculino e do Feminino”, publicado poucos meses antes de sua morte, que talvez sintetize melhor quem ela era. O livro é descrito como híbrido e anárquico: cartas não enviadas, trechos de roteiros, poemas pós-feministas, crônicas, pensamentos, crises, neuras, taras, fetiches, tudo isso ilustrado pela própria autora. Além disso, ganhou o Jabuti de 2019 de forma póstuma. No documentário, uma frase dita por ela em entrevista resume bem a frustração que acompanhou a escritora: “Sou mulher. Não pareço uma intelectual. Não reverencio os coronéis da cultura. Comecei a fazer sucesso em todas as outras coisas que fiz, e isso magoa muito as pessoas da literatura.” Antes de ser alfabetizada, ela já sabia que era escritora. Superou a dislexia para chegar lá. E ainda assim precisou provar sua legitimidade o tempo todo.

Por que ela ressoa hoje

Afinal, o que faz Fernanda Young ressoar com quem tem 20 anos hoje vai além dos temas. Ela nunca aceitou a caretagem, a cafonice, a exigência silenciosa de que você se comporte, que você caiba, que você seja palatável. Fernanda foi punk, doidona, com um espírito questionador que coexistia, sem contradição, com o romantismo, a melancolia e a depressão. Essa combinação é rara. E é exatamente o que a geração atual reconhece como verdadeiro.

No fim, como todo bom punk, ela servia antes de tudo como prova de que você não estava sozinho nas suas raivas. Que suas dúvidas tinham companhia. Para as mulheres que não são e nem almejam ser o que a sociedade espera delas, Fernanda foi um espelho sem filtro. Para os inquietos, os bêbados, os deprimidos, os apaixonados e os esperançosos, ela escreveu sem pedir licença e sem suavizar as arestas. Numa sociedade que ficou mais rígida desde quando ela se foi, esse legado só ficou mais urgente. Fernanda Young será eterna.

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