Uma década de “ANTI” e a virada histórica de Rihanna

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
por Alice Arruda

Há dez anos, Rihanna surpreendia a indústria ao lançar “ANTI“, seu oitavo e, até o momento, último álbum de estúdio. Marcado por um vazamento inesperado no Tidal, o projeto ultrapassou o episódio inicial e se consolidou como um divisor de águas na trajetória da artista.

Rihanna em foto promocional para o álbum "ANTI". Imagem: Divulgação.

Rihanna em foto promocional para o álbum “ANTI”. Imagem: Divulgação.

Em 28 de janeiro de 2016, “ANTI” foi vazado acidentalmente no Tidal, retirado horas depois e passou a circular ilegalmente. Para conter os danos, a Samsung adquiriu um milhão de cópias digitais e as distribuiu gratuitamente. Em apenas 15 horas, o álbum ultrapassou 1,4 milhão de downloads e recebeu certificação de platina da RIAA, embora o feito não tenha sido reconhecido pela Billboard. Devido à situação, o disco estreou na 27ª posição da Billboard 200 e alcançou o topo da parada na semana seguinte, tornando-se o segundo álbum número 1 da carreira de Rihanna.

A dimensão de “ANTI” só pode ser compreendida à luz da trajetória que o antecede. Contratada pela Def Jam em 2005, aos 16 anos, Rihanna construiu entre 2005 e 2012 uma das discografias mais bem-sucedidas do pop contemporâneo, marcada por lançamentos anuais e domínio das paradas globais. Em 2012, lançou “Unapologetic“, seu último álbum pelo selo, e em 2013 percorreu o mundo com a “Diamonds World Tour“, antes de anunciar uma pausa estratégica e romper com o ritmo industrial que guiava sua carreira.

Após cumprir seu contrato, a artista adquiriu os direitos de suas gravações originais e, em maio de 2014, firmou acordo com a Roc Nation para gerenciamento e estratégia global, formalizando uma parceria iniciada em 2010. No ano seguinte, fundou a Westbury Road Entertainment selo que garantiu controle criativo total sobre som, imagem e narrativa, em colaboração com grandes gravadoras para distribuição e marketing internacional.

Os primeiros sinais do oitavo álbum de Rihanna surgiram em 2014, quando a cantora passou a ser vista com frequência em estúdios de gravação e a divulgar prévias nas redes sociais. Desde então, tornou-se evidente um processo de reinvenção criativa, afastado das fórmulas tradicionais do pop. Em 2015, essa nova fase se consolidou com o lançamento de três singles que, apesar de distintos, expressavam um mesmo propósito artístico.

FourFiveSeconds”, parceria com Kanye West e Paul McCartney, marcou a abertura oficial desse novo capítulo em janeiro de 2015. A faixa aposta em uma sonoridade folk minimalista, guiada pelo violão acústico e por uma estética crua e despojada. Em termos líricos, aborda conflitos internos e a tentativa de manter o equilíbrio emocional diante das pressões cotidianas, revelando uma Rihanna mais vulnerável e introspectiva. A canção simbolizou uma ruptura estética clara, distanciando-se do pop eletrônico e radiofônico que predominava em sua discografia recente.

Na sequência, “Bitch Better Have My Money” apresentou o extremo oposto em termos de energia e postura. Ancorada no trap e no hip-hop contemporâneo, a música é agressiva, direta e provocativa. Sua temática gira em torno de poder, autonomia financeira, vingança e afirmação pessoal, com Rihanna adotando uma persona dominante e implacável. Mais do que um single explosivo, a faixa funcionou como um manifesto de independência e controle sobre sua própria narrativa.

Já “American Oxygen” apresentou um tom mais contemplativo e político. Musicalmente situada entre o pop e o R&B alternativo, a faixa constrói uma atmosfera expansiva e emotiva para refletir sobre identidade, desigualdade, imigração e o ideal do “sonho americano”. A letra estabelece paralelos entre a trajetória pessoal de Rihanna e a história dos Estados Unidos, oferecendo uma leitura crítica, sensível e reflexiva sobre pertencimento e ascensão social.

Ao longo daquele ano, Rihanna deixou claro que não buscava um álbum moldado para as exigências do rádio ou das paradas comerciais. Seu objetivo era construir uma obra atemporal, guiada pela autenticidade, pela experimentação e pela liberdade criativa. Esses três lançamentos, tão diferentes em forma e conteúdo, anteciparam com precisão o espírito de um projeto que priorizaria expressão artística acima de convenções, consolidando um dos momentos mais ousados e definidores de sua carreira.

O título e a capa de “ANTI” foram revelados em outubro de 2015, com arte assinada por Roy Nachum, retratando Rihanna criança, com uma coroa cobrindo os olhos e um poema em braile. Sobre o nome do projeto, a artista explicou que “ANTI” define “A pessoa que se opõe a uma prática, atividade ou ideia em particular”. A campanha “ANTIdiaRy“, desenvolvida com a Samsung, aprofundou o conceito ao conduzir o público por uma experiência imersiva que antecedeu o lançamento oficial.

Artisticamente, “ANTI” consolidou-se como o trabalho mais autoral da carreira de Rihanna. Assumindo a produção executiva após a saída de Kanye West, motivada por divergências criativas e conflitos de agenda, a cantora obteve créditos de composição em 15 das 16 faixas do álbum. Ao longo do projeto, Rihanna explora com profundidade a complexidade dos relacionamentos, da atração e da sexualidade à desilusão e à dor emocional, além de temas como autodescoberta, empoderamento, vulnerabilidade e nostalgia.

A era teve início com “Work”, terceira colaboração da cantora com Drake. A faixa, marcada pelo dancehall, simbolizou o retorno de Rihanna às suas origens caribenhas e contribuiu para a reintrodução do gênero no cenário mainstream. Com um refrão altamente contagiante, a canção se destaca pelo uso do sotaque barbadiano da artista. O single tornou-se o 14º hit número um de Rihanna na Billboard Hot 100, até o momento seu último, e permaneceu nove semanas no topo da parada.

Kiss It Better” foi lançada como um dos singles do projeto e apresenta uma sonoridade que mescla R&B e pop rock, com forte inspiração nas décadas de 1980 e 1990. A produção se apoia em guitarras marcantes e sintetizadores atmosféricos, enquanto a letra expõe a dinâmica de um relacionamento instável, atravessado por desejo, orgulho e fragilidade emocional. A faixa alcançou a 62ª posição na Billboard Hot 100.

Needed Me” aposta em um R&B contemporâneo com influência do trap e se destaca pelo tom frio e autossuficiente. Na canção, Rihanna assume uma postura dominante, rejeita idealizações românticas e trata o vínculo afetivo como algo passageiro. O discurso da música subverte o estereótipo da mulher dependente ao deixar claro que o apego partia do outro lado. O single chegou à 7ª posição na Billboard Hot 100.

Love On The Brain” encerrou a sequência de singles e chamou atenção pela entrega vocal intensa da cantora. Com raízes no soul e no doo-wop, a faixa dialoga com a música popular das décadas de 1950 e 1960. A composição aborda a dependência emocional dentro de um relacionamento abusivo marcado por dor e prazer, revelando um lado vulnerável e cru de Rihanna. O single atingiu a 5ª posição na Billboard Hot 100.

Para promover o álbum, Rihanna percorreu o mundo com a “ANTI World Tour“, que passou pela América do Norte, Europa e Ásia, totalizando 75 apresentações e arrecadando US$ 110 milhões, consolidando-se como uma das turnês mais bem-sucedidas de sua carreira.

Ainda durante a era “ANTI“, a cantora foi homenageada com o Michael Jackson Video Vanguard Award, prêmio que reconheceu sua influência duradoura na cultura pop e o impacto de sua videografia icônica. Na cerimônia do Video Music Awards daquele ano, Rihanna protagonizou um dos momentos mais memoráveis da noite ao realizar quatro performances distintas, cada uma estruturada como um medley que reuniu sucessos de diferentes fases e gêneros de sua trajetória artística.

Em virtude da excelência artística e da ampla aclamação crítica de “ANTI“, Rihanna recebeu oito indicações ao Grammy Awards 2017, figurando entre as artistas mais indicadas daquela edição. Ainda assim, a cantora não conquistou nenhuma das categorias às quais concorreu, e sua ausência entre os vencedores provocou ampla repercussão e indignação entre fãs e admiradores da cultura pop, que classificaram a falta de reconhecimento como uma das maiores injustiças da história da premiação.

Uma década após seu lançamento, “ANTI” permanece como uma obra singular, ousada e coerente, que redefiniu os limites criativos de Rihanna. Caso represente sua despedida definitiva da música, o álbum se impõe como um encerramento à altura, grandioso e consciente, de uma artista que transformou autonomia criativa em legado.

 

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