Madonna e sua história com a comunidade LGBTQIAPN+
Ao longo de mais de quatro décadas, Madonna construiu uma relação com a comunidade LGBT que vai muito além dos holofotes. Essa ligação começou antes da fama, atravessou a tragédia da AIDS, provocou governos e segue viva até hoje. Para entender onde ela está, é preciso começar onde tudo começou: numa sala de ballet em Michigan.

Pabllo Vittar, Madonna e Anitta em imagem publicada nas redes sociais. Imagem: Instagram.
O começo: Christopher Flynn e Detroit
Ainda adolescente, Madonna conheceu Christopher Flynn, seu professor de ballet, um homem assumidamente gay que se tornou seu mentor. Flynn foi mais do que um professor. Ele a levou aos bares e discotecas gays locais de Detroit e foi o primeiro a fazer Madonna entender que existia tal coisa como ser gay. Em seu discurso no GLAAD de 2019, ela recordou: “Ele foi meu professor de ballet no ensino médio e foi a primeira pessoa que acreditou em mim, que me fez me sentir especial como dançarina, como artista e como ser humano. Ele foi o primeiro homem a me dizer que eu era bonita.”
Flynn, portanto, não apenas ensinou Madonna a dançar. Ele a empurrou para Nova York, onde tudo mudaria. Ao chegar à cidade no fim dos anos 1970, Madonna se viu cercada de amigos gays. Naquele mesmo ambiente, porém, uma sombra começava a se formar.
A crise da AIDS e a perda dos amigos
As pessoas morriam de AIDS em todo lugar. Não era seguro ser gay. Não era cool ser associado à comunidade gay. Mesmo assim, Madonna não virou as costas. Em seu discurso no Billboard Woman of the Year de 2016, ela foi direta: “Era 1979 e Nova York era um lugar assustador.” No GLAAD de 2019, ela foi ainda mais visceral: “A epidemia de AIDS, a praga que chegou como uma nuvem negra em Nova York, num piscar de olhos levou todos os meus amigos. Lembro do pânico e do medo, e das pessoas tentando todo tipo de remédio que não funcionava, e fazendo minhas próprias viagens ao México para comprar medicamentos experimentais para meus amigos que deveriam ajudar a curar, mas acabavam os matando mais rápido.”
Christopher Flynn foi um deles. Ele morreu de AIDS em 1990, aos 57 anos. Assim como o artista Keith Haring, amigo próximo, que faleceu no mesmo ano, aos 31, de doença relacionada à AIDS. Em vez de se calar, Madonna agiu. Em 1989, ela e Flynn organizaram uma maratona de dança beneficente em Nova York para arrecadar fundos para o AIDS Project LA. Na época, Flynn agradeceu publicamente: “Você vai entender a profundidade da minha fé nela quando eu disser que ela foi uma das primeiras pessoas a quem recorri quando fui diagnosticado.” Além disso, Madonna incluiu um folheto informativo sobre HIV dentro do álbum Like a Prayer, num momento em que os republicanos bloqueavam pesquisas e educação sobre a epidemia.

Madonna e Christopher Flynn. Imagem: Reprodução
“Live to Tell” e a homenagem que atravessa décadas
Em 1986, Madonna lançou “Live to Tell“, uma balada introspectiva que rapidamente se tornou algo maior do que uma música. Com o tempo, a faixa virou um veículo de memória e protesto nas mãos dela. Na Confessions Tour, em 2006, ela a performou suspensa em uma cruz espelhada, usando uma coroa de espinhos, enquanto o telão exibia estatísticas sobre crianças afetadas pela AIDS na África. A imagem provocou líderes religiosos, mas Madonna se manteve firme na mensagem.
Na Celebration Tour, porém, a performance atingiu outro nível. O tributo começava com “Holiday“, recriando o ambiente do clube Paradise Garage de Nova York em 1983. Ao fim da música, os dançarinos saíam do palco e apenas um ficava, caindo no chão à frente de Madonna. Ela então o cobria com uma capa, como quem cobre um corpo. Alguns segundos de “In This Life“, elegia de 1992 aos amigos mortos pela AIDS, antecediam o início de “Live to Tell”.
Flutuando em um portal aberto acima da plateia, Madonna cantou enquanto as fotos dos mortos apareciam nas telas ao redor. A primeira imagem era a de Martin Burgoyne, seu roommate em Nova York nos primeiros anos, que morreu de complicações da AIDS em 1986, aos 23 anos. Em seguida, vieram Christopher Flynn, Keith Haring e dezenas de outros. Mas não apenas amigos pessoais: com a ajuda do perfil @theAIDSmemorial no Instagram, ela reuniu imagens de mais de 100 mil vítimas enviadas por famílias e amigos ao redor do mundo. No Dia Mundial da AIDS em 2023, em Amsterdã, Madonna chegou às lágrimas no palco e disse à plateia: “Eu teria cortado meus braços se pudesse ter encontrado uma cura para que eles vivessem.”
“Vogue” e a cultura ballroom
Votando para 1990, Madonna fez algo que nenhum artista mainstream havia feito antes. Com “Vogue“, ela trouxe para o centro do pop uma forma de dança criada por comunidades negras e latinas LGBT, que combina as poses de alta costura com gestos teatrais para contar histórias e imitar diversas performances de gênero. O impacto foi imediato. A música alcançou o número 1 em mais de 30 países e tornou o voguing parte da cultura mainstream. O co-criador da série Pose, Steven Canals, resumiu bem: “O que Madonna fez foi levar o ballroom para o mainstream. Ela apresentou ao mundo uma comunidade que, até então, era uma subcultura.”
Para a Blond Ambition Tour, Madonna foi além da música. Ela contratou sete dançarinos para o videoclipe e a turnê, seis dos quais eram gays. Um dos dançarinos, Oliver Crumes, declarou que sua visão homofóbica mudou completamente após a turnê: “Passei de homofóbico a amar todo mundo.” Vale dizer que “Vogue” não está isenta de críticas: parte da comunidade ballroom questiona se Madonna se apropriou de uma cultura negra e latina sem devolver o crédito adequado às suas criadoras. Essa tensão faz parte da história e merece ser reconhecida.
A escoteira do GLAAD
Em março de 2013, Madonna apareceu no 24º GLAAD Media Awards com um uniforme de escoteiro. O gesto foi uma provocação direta ao Boy Scouts of America, que na época proibia a participação de membros LGBT. No palco, ela foi direta: “Eu queria ser escoteira, mas não me deixaram entrar. Acho isso uma merda. Eu sei acender fogueira. Sei montar uma barraca. O mais importante: sei como ‘caçar’ meninos. Então acho que deveria ser escoteira e eles deveriam mudar suas regras estúpidas.” Depois disso, em um discurso de mais de dez minutos, ela abordou bullying, homofobia e violência contra jovens LGBT, afirmando que não conseguia mais aceitar o que via acontecer. Em maio do mesmo ano, o Boy Scouts anunciou uma resolução em favor de mais inclusão.
Naquela mesma noite, Madonna apresentou o Vito Russo Award a Anderson Cooper. Seis anos depois, em 2019, foi ela quem recebeu o prêmio. Na cerimônia do 30º GLAAD Media Awards, Anderson Cooper, ao apresentá-la, disse: “Nenhum aliado foi um amigo melhor ou teve um impacto maior na aceitação da comunidade LGBT do que Madonna.” No discurso de aceitação, ela foi enfática: “Lutar por todas as pessoas marginalizadas é um dever e uma honra dos quais não posso virar as costas e jamais virarei.”
Hoje: Grindr, Times Square e a nova era
Em 2026, Madonna chegou ao mês do Orgulho da mesma forma que sempre chegou: sem pedir licença. Em parceria com o Grindr, ela tomou conta da Times Square em 4 de junho com um show surpresa que estreou três músicas novas de “Confessions II” para uma multidão histórica. O anúncio chegou pelo próprio aplicativo Grindr apenas 30 minutos antes do show, e o concerto também foi transmitido ao vivo dentro do app para usuários do mundo todo. No palco, Madonna gritou para a multidão: “Tudo bem, Nova York! Estão prontos? Vamos lá, gays! Garotas, garotos, dolls! Feliz Pride!”
Em comunicado, Madonna explicou o que a parceria com o Grindr representa: “A comunidade LGBT sempre esteve comigo desde o começo. Nos inspiramos, nos desafiamos e estivemos lado a lado durante momentos sombrios e alegres. Fazer parceria com o Grindr parece uma celebração dessa conexão: segurança nos números.”
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Essa frase resume bem o que Madonna construiu ao longo de mais de quarenta anos. Não foi uma relação de conveniência ou de marketing calculado. Foi uma aliança forjada em salas de ballet em Detroit, em corredores de hospitais em Nova York, em palcos ao redor do mundo e, agora, nas ruas iluminadas de Times Square. A comunidade LGBT a formou. Ela, por sua vez, passou a vida inteira devolvendo isso.
Tá na boca do povo:



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