Madonna é capa da Vogue Itália, critica os algoritmos e fala sobre o novo álbum “Confessions II”

domingo, 28 de junho de 2026
por Alice Arruda

Madonna é a estrela da edição de julho da Vogue Itália. Em uma entrevista exclusiva, a Rainha do Pop revisita sua trajetória de mais de quatro décadas na música, reflete sobre as transformações da indústria fonográfica e revela detalhes de seu 15º álbum de estúdio, “Confessions II“, que chega às plataformas digitais em 3 de julho.

Madonna na capa da edição de julho da Vogue Itália. Foto: Rafael Pavarotti/Reprodução.

Madonna na capa da edição de julho da Vogue Itália. Foto: Rafael Pavarotti/Reprodução.

O novo trabalho é a aguardada continuação de “Confessions On A Dance Floor” (2005), um dos discos mais emblemáticos de sua carreira. O álbum consolidou uma de suas mais marcantes reinvenções artísticas ao colocar a música dance e disco no centro da cultura pop, sem abrir mão de reflexões espirituais e existenciais.

A sequência também marca o reencontro da cantora com o produtor Stuart Price, parceiro fundamental na construção do álbum original. Segundo Madonna, a conexão criativa entre os dois permaneceu intacta.

“Durante alguns anos, quis trabalhar com outras pessoas, ter outras experiências, mas depois reencontramo-nos para a minha Celebration Tour, da qual o Stuart foi diretor musical, e aí lembramo-nos do quanto gostávamos de trabalhar juntos, da nossa ligação não só sonora, mas também intelectual e emocional.”

A artista revelou que inicialmente hesitou em revisitar um de seus maiores sucessos.

“A princípio, não sabia se faria um novo Confessions, mas no estúdio, a nossa ligação quase telepática foi imediatamente recriada, o que nos impulsionou a continuar. E quando decidi mudar-me de Nova Iorque para Londres, onde ele vive, interpretei como um sinal de que queria ir até ao fim.”

Embora dialogue diretamente com o clássico de 2005, “Confessions II” segue um caminho próprio. O disco aprofunda sua exploração do house e da música eletrônica, enquanto suas letras abordam liberdade, consciência e conexão humana.

“É um álbum sobre consciência e liberdade. Dançar não é um ato sem sentido, mas permite criar um senso de comunidade e conexão. Hoje, com os smartphones, não nos conectamos mais de verdade, mesmo que nos iludamos pensando que sim. Em vez disso, cada pista de dança é um espaço ritualístico onde você liberta seu corpo e mente, a ansiedade desaparece e você tem a chance de talvez alcançar um estado de consciência mais profundo.”

Para Madonna, dançar sempre foi muito mais do que uma forma de entretenimento.

“A dança criou uma trajetória para mim, permitiu-me escapar do que eu considerava uma vida bastante prosaica no Meio-Oeste, para ir a Nova Iorque e perseguir os meus sonhos.”

As origens da cantora também inspiraram o novo projeto. Uma das faixas recebe o título de “Danceteria”, em homenagem à lendária boate nova-iorquina onde ela deu os primeiros passos na carreira. O local era frequentado por nomes como Keith Haring, Maripol e Basquiat.

“Lá eu conheci Martin Burgoyne e Debi Mazar, que se tornaram meus melhores amigos. Também conheci Mark Kamins, o primeiro a tocar a demo de ‘Everybody’ e que me ajudou a conseguir meu primeiro contrato com uma gravadora. Era um lugar único; não poderia existir hoje em dia. Porque a única maneira de conhecer pessoas era ir até lá, era preciso fazer um esforço.”

Ao comparar o cenário artístico de ontem e de hoje, Madonna lamentou a crescente influência dos números e dos algoritmos sobre a criatividade.

“Antigamente, você estava cercado por pintores, músicos, dançarinos, artistas, todos concentrados em um só lugar, trabalhando com uma certa pureza. Eu realmente valorizo essa experiência, mas não acho que muitas pessoas a vivenciem hoje em dia. Hoje, para conseguir um contrato com uma gravadora, você pensa em quantos seguidores tem. É por isso que em ‘Bring Your Love’ eu digo ‘Não tentem me distrair com números’, porque comecei sem pensar nas paradas musicais, no streaming. Trabalhar apenas em termos de algoritmos e inteligência artificial não permite que você corra riscos, o que é o completo oposto de fazer arte.”

Madonna contou que, de tempos em tempos, sente necessidade de se afastar da vida pública para alimentar sua imaginação.

“Tem sido difícil ultimamente porque estou trabalhando no álbum e em tudo que envolve isso. Mas de vez em quando gosto de fazer pausas, desaparecer um pouco. Até porque essa é a única maneira de alimentar a imaginação. Preciso de calma, para me conectar com a natureza, meus filhos, meus cavalos.”

A identidade visual de “Confessions II” foi desenvolvida em parceria com o fotógrafo brasileiro Rafael Pavarotti. Madonna revelou que o véu roxo presente na capa surgiu de forma espontânea durante a sessão de fotos.

“Não foi planejado, mas enquanto fazíamos as provas de roupa, encontrei esse pedaço de tecido e me pareceu perfeito para criar movimento. E então, enquanto eu estava sentada nessas caixas de som que são como o altar da pista de dança, coloquei-o na cabeça, como se estivesse me tornando uma santa.”

Ao abordar o papel da arte, Madonna destacou que acredita nela como um instrumento de união. Para a artista, “Confessions II” busca transformar a pista de dança em um espaço de encontro, pertencimento e liberdade.

“Passamos por muitos momentos difíceis ao longo da história, a única diferença é que hoje talvez não possamos contar uns com os outros. Temos dificuldade para nos encontrar, para marchar nas ruas. Houve um tempo em que nos olhávamos nos olhos e sabíamos que tínhamos nossos pares, família, amigos. Hoje, estamos todos mais isolados. Mas espero que este meu álbum funcione como um antídoto.”

Madonna também voltou a destacar sua histórica relação com a comunidade LGBTQIAPN+, que há décadas a reconhece como um de seus maiores símbolos de apoio e representatividade.

“Ela sempre foi minha primeira aliada, desde minha professora de dança em Michigan, que acreditou em mim e me levou a uma boate onde descobri que você podia ser você mesmo livremente, sem preconceito. Para mim, as pessoas queer sempre estiveram presentes, e quando a pandemia da AIDS começou, eu disse a mim mesma que era minha vez de apoiá-las, e continuo fazendo isso hoje, apesar de todos os obstáculos da sociedade. Quero protegê-las como elas sempre me protegeram.”

Mais do que revisitar um dos capítulos mais celebrados de sua discografia, “Confessions II” reafirma a disposição de Madonna em reinventar sua arte sem abrir mão de sua identidade. Entre memórias, reflexões sobre o presente e um convite para voltar a ocupar as pistas de dança, o álbum reforça a visão da artista de que a música e a dança continuam sendo poderosos instrumentos de conexão, liberdade e resistência ao isolamento.

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