Crítica: em “petal”, Ariana Grande promete ferocidade e entrega polidez
Ariana Grande descreveu “petal” como algo que vem “de um lugar onde fui talvez tímida ou educada demais para tocar antes”. É uma declaração de intenções que promete ruptura. O problema é que o disco que chegou no dia 31 de julho não soa como ruptura. Soa como Ariana tentando ser mais feral dentro do mesmo quarto que ela sempre habitou, com as mesmas paredes, a mesma iluminação e as mesmas texturas nas cortinas. Isso não significa que petal seja um disco ruim, porém significa que é um disco que não cumpre o que promete, e essa distância entre a promessa e o resultado é onde ele perde mais pontos.

Ariana Grande para seu álbum petal. Foto: Divulgação.
Petal foi co-escrito e co-produzido por Ariana ao lado de Ilya Salmanzadeh, o mesmo produtor com quem ela trabalha desde Sweetener, em 2018. A fidelidade à parceria faz sentido em termos afetivos, mas cria um problema estético claro: o disco soa como todos os discos anteriores deles juntos, só que com menos variedade interna.
A Variety descreveu petal como “raivoso e angular”. A descrição se aplica às letras. Sonicamente, no entanto, o disco é quase o oposto: suave, contido, construído em camadas de synth-pop e alt-pop que raramente sobem de temperatura. O instrumental sugere gêneros, às vezes uma vibe de UK garage, outras algo mais onírico próximo de Imogen Heap, uma ou outra faixa com textura de banda indie, mas os vocais não acompanham as mudanças que o instrumental propõe. O resultado é uma sensação constante de diluição: os elementos identificadores de cada sonoridade aparecem nos primeiros segundos e desaparecem antes de se firmar.
A voz de Ariana é, como sempre, tecnicamente impecável. Cristalina, precisa, com controle absoluto de cada nota. O problema não é o que ela faz com a voz, é o que a produção pede que ela faça, que é essencialmente a mesma coisa em todas as doze faixas. Sem variações expressivas mais ousadas, sem momentos onde a voz force os limites do que o instrumental propõe, a sequência começa a soar repetitiva por volta da quinta faixa.
O ponto alto inegável do disco são as letras. Petal trata de “se libertar de todos os tipos de apegos negativos, sejam os próprios monstros internos, vozes externas ou coisas que não servem mais.” Na prática, isso se traduz num paralelo contínuo entre um relacionamento tóxico com um parceiro e a relação parasocial com os fãs e a fama. Além disso, as mesmas palavras funcionam nos dois registros simultaneamente, e Ariana maneja essa ambiguidade com habilidade.
“kiss me”, que abre o disco, estabelece esse jogo de duplo sentido de forma etérea. “hate that i made you love me”, o lead single e único número 1 até agora, é onde a raiva das letras encontra seu equivalente mais próximo na produção, ainda que de forma contida. “oh well” e “nowhere, nobody” são os momentos mais honestos do disco, onde a linearidade da produção não consegue abafar o que está sendo dito. “bad thing (bunny hop)” é a faixa mais experimental do projeto, com guitarras secas e uma textura que destoa do resto, para o bem. É onde petal respira de forma diferente e onde Ariana parece mais disposta a abandonar o conforto.
Há algo genuinamente perspicaz na forma como o disco aborda a fama: a ideia de que o custo de ser o alvo das expectativas e decepções de milhões de pessoas é um relacionamento tóxico do qual ela talvez precise sair para sobreviver, mesmo que isso signifique abandonar algo que ela ama. Esse pensamento mereceria um disco sonicamente mais corajoso para habitá-lo.
“Petal” tem um defeito estrutural que nenhuma das suas qualidades consegue compensar completamente: o som não conversa com as letras. As letras são agressivas, sem filtro, carregadas de ambiguidade e dor. Porém, a produção é suave, uniforme e segura. Essa dissociação deixa uma oportunidade perdida.
Entretanto, comparado a Eternal Sunshine, que também apostou numa sonoridade mais stripped-down mas manteve uma coesão emocional entre letra e produção que tornou o disco mais cativante, petal chega num registro similar sem o mesmo impacto. Não há aqui um “we can’t be friends” que resuma tudo que o disco é num único gancho. As melhores faixas entregam momentos pontuais.
Sendo um disco honesto e bem escrito que chega com uma produção que quase engole o que tem de melhor. Quando experimenta, como em “bad thing (bunny hop)”, ou quando a letra é forte o suficiente para compensar a uniformidade sonora, como em “oh well” e “nowhere, nobody”, o disco justifica sua existência. No geral, porém, é um trabalho que promete ferocidade e entrega polidez, que aponta para um novo território e recua antes de cruzar a fronteira. Por fim, Ariana Grande sabe exatamente o que quer dizer. Só precisava de uma produção disposta a dizer junto.
GÊNERO: Pop/R&B
GRAVADORA: Babydoll/Republic
DATA DE LANÇAMENTO: 31/07/2026
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