Crítica: em “Memórias Póstumas”, Jão processa o luto e entrega o disco mais íntimo de sua carreira

Existe uma diferença entre um artista que entra em hiato para descansar e um artista que para porque precisa. Jão se encaixava na segunda categoria quando anunciou sua pausa, em 2025. A SuperTurnê havia encerrado em janeiro daquele ano no Nubank Parque, depois de anos de estrada que incluíram estádios, “Super” e tudo o que a era mais ambiciosa de sua carreira exigiu. Logo depois, veio o falecimento de seu pai. O silêncio que se seguiu fez-se necessário.
Memórias Póstumas, portanto, nasce de um período de vida que exigiu processamento. O título referencia Memórias Póstumas de Brás Cubas, clássico de Machado de Assis que inaugurou o realismo brasileiro, e a escolha não é casual. Assim como Brás Cubas narra sua própria história a partir da morte, Jão olha para trás a partir de uma perda.
O álbum conta com 14 faixas, todas produzidas ou compostas pelo próprio Jão. A equipe de colaboradores é enxuta: o namorado e sócio Pedro Tófani, o produtor Zebu e participações pontuais de Janluska, Gabriel Duarte e Mazzola. Nenhum feat. Nenhum convidado nominal. Na contramão do mercado pop, que acumula dezenas de créditos por faixa, Jão foi na direção oposta. O resultado é um disco que soa coeso como poucos no pop brasileiro recente.
Para a capa, o cantor contratou Hugo Comte, fotógrafo conhecido pelo trabalho em Future Nostalgia, de Dua Lipa. A imagem é de Jão na garupa de uma moto, com uma flor na orelha e roupa social, conduzido por uma senhora de vestido preto e cabelos grisalhos ao vento. É uma capa que levanta mais perguntas do que responde, o que combina com o álbum que está por baixo dela.

Capa do álbum Memórias Póstumas. Imagem: Hugo Comte/Reprodução.
“Catedral” abre o disco e define o clima de tudo o que vem depois. Com a participação nos backing vocals de Ana Caetano da ANAVITÓRIA, a faixa é dilacerante no sentido mais exato da palavra: ela parte algo em você antes que você perceba. A produção cria espaço, e nesse espaço Jão coloca a voz sem armadura. É uma das melhores aberturas de álbum que ele já gravou.
“João” é um caso à parte. A faixa é a única do disco composta por Pedro Tófani, e não por Jão. Ouvir o namorado escrever sobre você e depois gravar isso é um gesto de vulnerabilidade que não precisa de explicação. A música funciona exatamente porque é simples. “Aurora” é o ápice instrumental do projeto. A produção cresce de forma orgânica até alcançar um pico que parece inevitável junto com um acúmulo emocional bem resolvido.
“Passeios Noturnos” entrega o contraponto mais imediato do disco: um pop rock de energia que respira diferente do resto do álbum. Funciona como alívio e como prova de que Jão não abandonou completamente o instinto de pista. Por fim, a faixa-título encerra tudo. Com uma narrativa fora do comum para o cantor, “Memórias Póstumas” opera num registro mais literário e distanciado, próximo do narrador machadiano que dá nome ao álbum. Assim sendo, um fechamento que pede releitura.
Memórias Póstumas tem um limite claro, e ele não é sonoro. As faixas que exploram a perda de um ente querido e o luto são onde o disco brilha com mais intensidade e onde Jão encontra terreno genuinamente novo em sua discografia. Porém, o problema surge quando o álbum retorna ao território do fim de relacionamento, tema que ele já trabalhou em “Anti-Herói”, “Pirata“ e “Super“. Não é que essas faixas sejam ruins: algumas são bem executadas e emocionalmente honestas. Mas elas chegam sem grandes novidades em termos de perspectiva ou abordagem. O ouvinte de longa data vai reconhecer o acorde antes de ele soar.
Contudo, essa limitação temática não invalida o disco. Porém, ela cria uma hierarquia interna: os momentos que exploram o luto real se sobressaem com facilidade sobre os que revisitam o luto afetivo.
“Memórias Póstumas” é o disco mais honesto de Jão. Após construir seus quatro primeiros álbuns em torno de elementos da natureza, ele apresenta aqui um trabalho de caráter mais pessoal. A atmosfera é consistente, os arranjos são belos e os melhores momentos do disco pertencem a uma versão do cantor que ainda está aprendendo a se expor dessa forma. Por tudo isso, é um trabalho que merece atenção.
Não é, porém, um disco que representa um salto completo. É mais uma virada de câmera do que uma mudança de filme. Mas às vezes isso é exatamente o que um artista precisa fazer, e saber a hora de fazer isso também é uma habilidade.
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