Há 10 anos, Beyoncé lançava “Lemonade”, um manifesto artístico do pop contemporâneo
Após parar o mundo com o lançamento surpresa de seu álbum visual autointitulado em 2013, Beyoncé voltou a inovar em 23 de abril de 2016 com “Lemonade”, seu sexto álbum de estúdio. O projeto foi estruturado como uma obra completa, em um momento em que o streaming começava a se consolidar e transformar os hábitos de consumo musical.

Beyoncé em foto promocional para o álbum “Lemonade”. Imagem: Divulgação.
Com uma proposta conceitual e emocionalmente densa, “Lemonade” aborda temas como a traição que desencadeou uma crise no casamento da artista, além de identidade racial e empoderamento feminino, construindo uma narrativa coesa ao longo de 12 faixas. Desde seu lançamento, recebeu ampla aclamação da crítica e passou a figurar em listas dos melhores álbuns da história. Em 2016, foi um dos principais lançamentos do ano e o mais vendido mundialmente no período, estreando no topo da Billboard 200.
Beyoncé deu início à era com o single “Formation”, lançado em 6 de fevereiro daquele ano. No dia seguinte, apresentou a faixa ao vivo no Super Bowl 50, cuja atração principal foi a banda Coldplay, com a cantora como convidada especial. A canção aborda temas como identidade, negritude, poder feminino e orgulho cultural.
O videoclipe, dirigido por Melina Matsoukas, amplia essa proposta ao trazer referências ao pós-Katrina em Nova Orleans, ao movimento Black Lives Matter e à celebração da cultura negra no sul dos Estados Unidos. Também conta com Big Freedia em narração em off, com ad-libs que reforçam o movimento bounce. Entre as cenas mais marcantes estão Beyoncé sobre uma viatura policial submersa e a mensagem “Stop Shooting Us”, que em português significa “Parem de atirar em nós”.
O lançamento gerou forte repercussão nos Estados Unidos, sendo alvo de críticas de setores conservadores e de tentativas de boicote por parte de sindicatos e autoridades policiais, que interpretaram o videoclipe como uma crítica direta às forças de segurança. Ainda assim, consolidou-se como um dos momentos mais impactantes da carreira da artista.
Meses depois, em abril, Beyoncé apresentou ao público o filme de “Lemonade”, transmitido pela HBO. Antes da exibição, havia divulgado um teaser anunciando o projeto visual. Dividido em 11 capítulos, o especial acompanha uma jornada emocional que vai da intuição à negação, da raiva à reconstrução e, por fim, à redenção.
Logo após a exibição, o álbum foi disponibilizado com exclusividade no Tidal, então pertencente a JAY-Z, marido da artista. Três anos depois, chegou às demais plataformas digitais, já consolidado como um dos trabalhos mais influentes da década de 2010.
O impacto não veio apenas do conceito. Musicalmente, o projeto reúne uma ampla variedade de gêneros em uma estrutura coesa, em que cada faixa traduz diferentes estados emocionais. “Pray You Catch Me” abre o álbum com um R&B minimalista, marcado pela suspeita de infidelidade. “Hold Up”, com influência reggae, aborda o ciúme após a traição amorosa, ao mesmo tempo em que afirma a autoestima e a força feminina. Já “Don’t Hurt Yourself”, com Jack White, mergulha na raiva e no confronto, com sonoridade rock.
“Sorry” assume um R&B frio e assertivo, marcado pela afirmação de desapego e pela referência à chamada “Becky do cabelo bom”, expressão usada por Beyoncé de forma indireta para se referir à mulher com quem JAY-Z a traiu, cuja identidade nunca foi confirmada. Em seguida, “6 Inch”, com The Weeknd, mistura R&B e trap e aborda empoderamento feminino e independência financeira.
“Daddy Lessons” incorpora influências do country e aborda os ensinamentos do pai da cantora sobre força e resiliência. “Love Drought” retoma a introspecção do R&B e trata das inseguranças em um relacionamento e de uma tentativa de reconexão. “Sandcastles” expõe a fragilidade emocional e a difícil decisão de reconstruir uma relação após uma traição, e “Forward”, com James Blake, aborda a superação e a necessidade de seguir em frente diante da dor.
Na reta final, “Freedom”, com Kendrick Lamar, amplia a narrativa para um campo de resistência e libertação, abordando a luta contra opressões pessoais e coletivas. “All Night” trata da reconciliação e da reconstrução da confiança após a traição, enquanto “Formation” encerra o álbum como uma afirmação de identidade e poder.
No Grammy Awards, o álbum venceu Melhor Álbum Urbano Contemporâneo e Melhor Videoclipe por “Formation”. Ainda assim, perdeu Álbum do Ano para “25”, de Adele, resultado que gerou surpresa. Em discurso comovente, Adele afirmou que o prêmio deveria ter sido de Beyoncé.
“Formation” também venceu Vídeo do Ano no MTV Video Music Awards 2016. Na ocasião, Beyoncé realizou uma performance com medley das faixas do álbum, considerada histórica, em sua última aparição na premiação até o momento.
Para divulgar o projeto, realizou a “The Formation World Tour”, com 49 apresentações pela América do Norte e Europa, levando a estética e narrativa de “Lemonade” aos palcos.
Uma década depois, “Lemonade” permanece como um marco na música contemporânea, não apenas por seu impacto crítico e comercial, mas pela forma como transformou uma experiência íntima em linguagem universal. Ao unir narrativa, experimentação sonora e pautas sociais, Beyoncé não apenas lançou um álbum, mas estabeleceu um novo patamar para sua própria carreira.
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