Melanie Martinez lança seu novo álbum “HADES”, um retrato crítico da sociedade contemporânea

sexta-feira, 27 de março de 2026
por Alice Arruda

Três anos após o lançamento de “PORTALS“, Melanie Martinez retorna nesta sexta-feira (27) com “HADES”, seu novo álbum de estúdio. Com 18 faixas e pouco mais de uma hora de duração, o projeto reafirma o olhar crítico da artista e amplia suas abordagens temáticas ao longo da carreira.

Melanie Martinez em foto promocional para o álbum "HADES". Imagem: Divulgação.

Melanie Martinez em foto promocional para o álbum “HADES”. Imagem: Divulgação.

Em “HADES”, Melanie Martinez aborda questões como poder, corrupção, gênero, religião e capitalismo a partir de uma perspectiva incisiva e, em muitos momentos, desconcertante. Em vez de projetar um futuro distópico, a artista investiga dinâmicas já enraizadas na sociedade contemporânea, recorrendo a símbolos e referências mitológicas para expor suas tensões e fragilidades.

A abertura com “GARBAGE” estabelece imediatamente o tom do álbum. Sons de disparos e o clamor caótico de uma multidão se misturam a uma base distorcida, criando uma atmosfera sufocante que traduz a saturação informacional e o ruído social dos tempos atuais.

“DISNEY PRINCESS”, um dos singles do projeto, contrasta uma introdução orquestral grandiosa com uma melodia delicada, ainda que carregada de tensão. A faixa critica a objetificação feminina e a lógica de consumo que envolve a imagem da mulher, reforçada por versos diretos e perturbadores. O encerramento, guiado por sintetizadores sombrios, intensifica a atmosfera de inquietação.

“WHITE BOY WITH A GUN” se constrói sobre uma percussão suave e uma linha de baixo etérea, com uma produção sutil que contrasta com sua crítica incisiva à misoginia. A interpretação de Melanie Martinez intensifica o impacto da mensagem. Esse contraste também aparece em “POSSESSION”, que combina elementos delicados com nuances mais obscuras, incluindo discretos sinos que evocam o ambiente religioso.

A crítica à religião ganha força em “THE VATICAN”, um dos pontos altos do álbum. A faixa combina um coro solene com batidas eletrônicas, enquanto Melanie Martinez evidencia as contradições entre o discurso moral e as práticas contemporâneas. O resultado é uma provocação direta e incômoda, que expõe a tensão entre fé e poder.

Em “GRUDGES”, Martinez revisita a estética de seus primeiros trabalhos, mas sob uma lente mais distorcida e sombria. A produção lo-fi e abrasiva conduz uma reflexão sobre ressentimento e vingança, suavizada momentaneamente por um interlúdio delicado. Já “WEIGHT WATCHERS” amplia o alcance temático ao abordar a obsessão com padrões corporais, um debate que ultrapassa o universo das celebridades e reflete pressões sociais amplas.

O cuidado com a construção sonora permeia todo o álbum. Em “MONOPOLY MAN”, o som de moedas reforça a crítica ao acúmulo de riqueza e às dinâmicas de controle econômico. Já “CHATROOM” incorpora sons nostálgicos do AOL Messenger para abordar o impacto do bullying online.

“BATSHIT INTELLIGENCE” equilibra uma melodia aparentemente leve com uma letra carregada de angústia. A faixa expõe tensões ligadas ao custo de vida e à instabilidade econômica, refletindo um cenário agravado no período pós-pandêmico. O desfecho, com trechos de um telejornal sobre a remoção de pessoas em situação de rua, conecta-se diretamente com “GUTTER”, um dos momentos mais crus e explícitos do disco.

Já “THE PLAGUE” aposta em uma construção sonora caótica, repleta de glitches e camadas eletrônicas que provocam desconforto. A atmosfera claustrofóbica dialoga com ideias de contágio, tanto no sentido literal quanto simbólico.

O encerramento com “THE LAST TWO PEOPLE ON EARTH” traz um respiro melancólico. A faixa combina nostalgia e lucidez ao refletir sobre a fragilidade da existência humana, funcionando como uma conclusão coerente para a narrativa proposta.

Em “HADES”, Melanie Martinez não se limita a retratar um mundo em colapso, ela escolhe encará-lo sem filtros. O álbum evita respostas fáceis e se sustenta na exposição de verdades incômodas, embaladas por uma produção detalhista e estética cinematográfica. O resultado é um trabalho intenso, teatral e, por vezes, perturbador, exatamente como se propõe a ser.

 

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