Quando artistas usaram a música pop como ativismo político

terça-feira, 13 de outubro de 2026
por Arthur Rodrigues

A música pop sempre foi mais do que entretenimento. Em cada geração, artistas escolheram usar seus palcos, suas letras e sua visibilidade para dizer algo sobre o mundo em que viviam. Às vezes pagaram um preço alto por isso. Em outros momentos, mudaram a história. Do Brasil à América, a lista de quem transformou a canção em ato político é longa e necessária.

Beyoncé em foto promocional para o álbum "Lemonade". Imagem: Divulgação.

Beyoncé em foto promocional para o álbum “Lemonade”. Imagem: Divulgação.

Michael Jackson e a MTV segregada

Em 1983, a MTV não tocava artistas negros. A emissora havia sido lançada dois anos antes com uma programação praticamente toda voltada para o rock branco. Quando Thriller chegou às mãos de Walter Yetnikoff, presidente da CBS Records, ele foi categórico: ou a MTV passaria a exibir os clipes de Michael Jackson, ou a gravadora retiraria todos os seus artistas da grade da emissora. A MTV cedeu. A partir daí, Jackson virou o artista mais tocado do canal e abriu as portas para toda uma geração de artistas negros que viria depois.

Michael também usou sua arte para falar diretamente sobre racismo. “Black or White”, de 1991, foi um manifesto sobre igualdade racial com um clipe que mostrou rostos de diferentes etnias se transformando uns nos outros. Por fim, “They Don’t Care About Us”, de 1996, foi tão direta em sua crítica ao sistema que gerou controvérsia imediata e só cresceu em relevância com os anos.

Janet Jackson e o álbum que virou manifesto

Em 1989, Janet Jackson lançou Rhythm Nation 1814. O título faz referência ao ano em que o hino americano foi escrito, numa provocação clara: e o que essa nação prometeu para todos os seus cidadãos? O álbum abordou racismo, pobreza, analfabetismo e discriminação num arco conceitual rigoroso, embalado por uma produção densa de Jimmy Jam e Terry Lewis. “Rhythm Nation” abriu o disco como um chamado à ação coletiva. “The Knowledge” falou sobre drogas nas comunidades. Além disso, “Free Xone” tratou de homofobia e relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo numa época em que isso ainda era tabu absoluto no mainstream. Os sete singles do álbum chegaram ao top 5 da Billboard, tornando-o o mais bem-sucedido álbum de estreia numa parada nos Estados Unidos. Com isso, Jackson provou que arte engajada e sucesso comercial podiam caminhar juntos.

Beyoncé e a política do corpo negro

Por muito tempo, Beyoncé foi vista como uma artista de entretenimento puro: impecável, grandiosa, mas politicamente neutra. Tudo mudou em fevereiro de 2016, quando ela se apresentou no intervalo do Super Bowl com a música “Formation”, lançada de surpresa no dia anterior. A performance foi uma declaração aberta de orgulho negro, com dançarinas vestidas como os Panteras Negras, punhos levantados e referências diretas ao furacão Katrina e à violência policial contra negros nos Estados Unidos.

Cinco meses depois, ela lançou Lemonade, um álbum-filme que atravessou traição, raiva, luto e cura enquanto construía um retrato coletivo da mulher negra americana. “Freedom”, com Kendrick Lamar, foi o ponto de virada do disco e encerrou com imagens de mães de vítimas de violência policial segurando fotos dos filhos mortos. Portanto, Beyoncé não apenas falou sobre política. Ela colocou a dor de pessoas reais dentro da arte pop mais assistida do mundo.

Tropicália e a ditadura brasileira

No Brasil, a relação entre música e política nunca foi opcional. Foi, em muitos momentos, uma questão de sobrevivência. Em 1967, Caetano Veloso e Gilberto Gil lançaram o movimento Tropicalista, que misturava rock, bossa nova, cultura de massa e referências internacionais para provocar tanto o conservadorismo da direita quanto o purismo da esquerda. Em vez de aceitar os limites impostos pelos dois lados, a Tropicália questionou tudo. Por isso, incomodou o regime militar o suficiente para que, em 1969, Caetano e Gil fossem presos, mantidos em prisão domiciliar por meses e depois forçados ao exílio em Londres.

Nesse mesmo período, em 1973, Chico Buarque e Gilberto Gil compuseram “Cálice”, uma das músicas mais inteligentes já escritas em língua portuguesa. A palavra “cálice” soa igual a “cale-se”, e a metáfora religiosa do sofrimento de Cristo serviu como cobertura para denunciar a tortura e a censura da ditadura. As autoridades proibiram a música imediatamente. Mesmo assim, Gil chegou a cantá-la num show em homenagem a um estudante morto pelo regime, desafiando abertamente a proibição.

Cazuza, Renato Russo e o rock do fim da ditadura

Nos anos 1980, com a abertura política em curso mas ainda incompleta, uma nova geração tomou a guitarra como arma. Cazuza compôs “Brasil” em 1988 como um grito de amor e indignação ao mesmo tempo. “Brasil, mostra a tua cara / Quero ver quem paga pra gente ficar assim”, cantava, enquanto o país vivia o processo constituinte. Além disso, o cantor viria a se tornar um dos primeiros artistas brasileiros a falar abertamente sobre AIDS, transformando sua própria enfermidade em posicionamento público num momento em que o tema era cercado de silêncio e preconceito.

Renato Russo, por sua vez, escreveu “Que País É Este?” em 1978, mas só a gravou em 1987, no terceiro álbum da Legião Urbana. A música chegou num momento em que o Brasil ainda elaborava o trauma de duas décadas de autoritarismo. “No Senado, sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a constituição / Mas todos acreditam no futuro da nação.” Trinta e oito anos depois, a letra ainda aparece em manifestações.

O funk e o RAP como denúncia periférica

Porém, a música política brasileira não vive apenas na MPB e no rock. O RAP e o funk periférico carregam uma tradição de denúncia que começa nos anos 1990 e não parou mais. O Racionais MC’s transformou a violência do sistema penitenciário, a ausência do Estado nas periferias e o racismo estrutural em letras que sobrevivem décadas sem envelhecer. MV Bill, no Rio de Janeiro, fez o mesmo com a realidade das favelas. Mais recentemente, em 2019, Emicida usou o palco do programa Ensaio, da TV Cultura, para reunir Majur, Pabllo Vittar, Larissa Luz e outros artistas numa versão de “AmarElo” que trouxe Gilberto Gil ao mesmo palco e costurou, em tempo real, quatro gerações de resistência negra brasileira.

A importância

Por fim, a música pop tem uma característica que nenhuma outra forma de arte possui: ela chega a lugares onde livros, documentários e discursos políticos não chegam. Ela toca num carro às 7h da manhã. Ela aparece no fone de ouvido de um adolescente que nunca foi a uma manifestação. Além disso, ela entra numa festa e fica gravada na memória por décadas. Por isso, quando um artista com plataforma decide colocar algo real dentro de uma canção, o alcance é diferente de qualquer outra coisa. Não é garantia de mudança. Porém, é uma forma de dizer que algo existe, que alguém viu, e que o silêncio não é a única opção.

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