Taylor Swift revela detalhes de seu processo de composição em entrevista ao CEO do Grammy

terça-feira, 25 de agosto de 2026
por Alice Arruda

Na última segunda-feira (24), o Museu do Grammy divulgou na íntegra o especial The Icon Sessions with Taylor Swift: A 20-Year Retrospective, gravado no Teatro Clive Davis, em Los Angeles. Em conversa com Harvey Mason Jr., CEO da Academia de Gravação, Taylor Swift revisitou diferentes momentos de sua carreira e falou sobre composição, vulnerabilidade, criatividade e a relação entre suas músicas e o público.

Taylor Swift durante apresentação no The Icon Sessions, do Grammy Museum. Foto: Reprodução/YouTube.

Taylor Swift durante apresentação no The Icon Sessions, do Grammy Museum. Foto: Reprodução/YouTube.

Desde sua estreia, em 2006, com “Tim McGraw”, a cantora se consolidou não apenas como uma das maiores artistas pop de sua geração, mas também como uma compositora reconhecida pela capacidade de transformar experiências em narrativas que encontram identificação entre os ouvintes.

A música como forma de contar histórias

Ao explicar por que a composição se tornou tão importante em sua trajetória, Taylor destacou que sempre enxergou a música como uma maneira de preservar experiências, e não de esquecê-las.

“Eu acho que contar histórias foi o motivo pelo qual a música pareceu importante para mim. Então, sendo atraída por esse aspecto da música, eu nunca recorri à música para esquecer a minha experiência humana. Eu recorri à música para lembrar dela. E na composição eu sempre me pego atraída por consequências, por riscos e pela passagem do tempo, para a gente conseguir ver aquelas decisões até o fim.”

A artista também contou que nunca quis limitar sua produção às expectativas de um determinado gênero musical ou público-alvo. No início da carreira, chegou a ouvir questionamentos sobre como suas experiências poderiam se conectar com o público da música country.

“Eu ouvi muitas pessoas do lado da gravadora dizerem coisas como: ‘O público da música country é uma mulher de 35 anos. Como elas vão se identificar com você escrevendo músicas sobre a sua vida no 1º ano do ensino médio?’ É uma pergunta justa.”

Para Taylor, porém, seguir essas previsões significaria ignorar justamente uma das características mais imprevisíveis da música: sua capacidade de tocar pessoas de diferentes idades e realidades.

“Se eu olhar para trás e disser: ‘Nossa, isso é loucura. Foi por isso que tudo funcionou’, foi porque eu não ouvi as pessoas que diziam que eu não tinha uma perspectiva válida sobre a vida porque eu não me encaixava em uma determinada demografia que elas haviam estudado, com base nas análises de um determinado gênero e na maneira como as pessoas vivenciam a música. Acho que a música é tão maravilhosa porque você realmente não sabe o que vai tocar o coração das pessoas.”

Taylor Swift explica por que não busca aprovação universal

A cantora também refletiu sobre a maneira como lida com a repercussão de seu trabalho e afirmou que sua principal preocupação é alcançar quem realmente se conecta com suas músicas.

“Percebi que estou fazendo música porque estou tocando para os fãs. Estou lançando isso para pessoas que se importam com ela e que recorrem à música como uma forma de lidar com a vida, assim como eu fazia.”

Taylor explicou que, para ela, continuar criando mesmo sem a garantia de uma aprovação universal é uma forma de reconhecer o verdadeiro motivo pelo qual escolheu a música.

“E acho que, se você consegue passar por todos esses pontos de verificação e perceber que lançar uma música que você criou e ama tanto não é o caminho para obter validação universal, mas você continua fazendo isso, então você ama isso pelas razões certas.”

A relação com as críticas também ganhou espaço na conversa. A artista contou que, em algumas situações, prefere responder às provocações com humor.

“Às vezes, quando as pessoas estão me zoando, é muito divertido zoar de volta. Às vezes eu gosto de usar palavras que elas vão ter que procurar no dicionário para conseguir falar mal.”

“Reputation” e a vulnerabilidade de Taylor Swift

Ao falar sobre “Reputation”, Taylor explicou que o álbum nasceu em um período no qual se sentia constantemente incompreendida e julgada. A estratégia foi transformar essa sensação em uma narrativa deliberadamente irônica.

“As pessoas tentavam interpretar mal o que eu estava tentando dizer e faziam isso de propósito. Isso foi muito sufocante como pessoa, mas também como escritora.”

Segundo a cantora, responder de maneira sincera naquele momento poderia apenas alimentar as críticas.

“Aprendi que, quando as pessoas decidem ficar ao redor de alguém, apontar e zombar dela, você não pode responder com sinceridade aberta. Qualquer tentativa de explicar algo de maneira sincera será ridicularizada ainda mais.”

Foi nesse contexto que surgiu “Look What You Made Me Do”, que, segundo Taylor, representava uma forma de reagir à situação sem precisar expor diretamente sua vulnerabilidade.

“Então decidi lançar ‘Look What You Made Me Do’, apresentando uma interpretação muito irônica e maliciosa de como é se sentir encurralada daquela maneira.”

Por trás da postura provocativa, porém, Taylor enxergava o disco como uma espécie de refúgio.

“Se você olhasse mais profundamente para aquele álbum, era um disco sobre tentar se sentir tão perturbada por aquela humilhação em massa que você encontrava uma pequena caverna, entrava nela e tentava encontrar um pouquinho de calor.”

As desilusões amorosas sob outra perspectiva

Com o passar dos anos, Taylor também passou a enxergar de outra maneira as músicas que escreveu sobre términos e desilusões amorosas. Para ela, essas canções permanecem como registros fiéis de determinados momentos, mesmo quando o significado delas muda.

“Olho para músicas que escrevi sobre um sofrimento amoroso devastador e penso: ‘Essa foi uma lição muito boa que aprendi.’ Essa música é sobre uma lição muito boa que aprendi. Então isso muda com o tempo, mas continua sendo um reflexo muito fiel da época pela qual eu estava passando.”

“Folklore” e a sensação de estar sozinha

A capacidade de transformar sentimentos individuais em experiências coletivas também foi um dos assuntos abordados. Taylor citou “Folklore”, lançado durante a pandemia, como um dos momentos em que sentiu essa conexão de maneira mais intensa.

“Sim, e eu acho que esse é um conector que une, e que provavelmente é o que trouxe todo mundo nesta sala para a música. Uma época em que eu senti isso mais forte foi quando eu fiz um álbum chamado ‘Folklore’ na pandemia.”

A cantora mencionou “Peace”, “Hoax” e “Exile” como exemplos de canções que exploram a solidão, um sentimento compartilhado por pessoas ao redor do mundo naquele período.

“É sobre se sentir completamente sozinha, o que, estranhamente, todo mundo no planeta estava sentindo em algum grau. E poder lançar aquele álbum e a gente ter algo em que todo mundo pudesse dizer ‘ah, é, eu também me senti assim’. Essa foi, eu acho, a sensação de união mais intensa que eu já senti.”

A obra também permitiu que Taylor experimentasse uma abordagem diferente da composição, recorrendo à terceira pessoa e à criação de personagens fictícios.

“Foi extremamente diferente para mim, e foi meio como uma válvula de escape. Foi uma fuga para dentro da minha imaginação. De repente eu estava caminhando à beira de um penhasco, olhando para o oceano, em vez de estar só em casa.”

A cantora também se divertiu ao criar personagens diferentes que interagiam entre si.

“Mas com ‘Folklore’ eu estava muitas vezes criando o personagem e criando personagens diferentes que interagiam entre si. Isso foi muito divertido.”

O que significa ser uma compositora confessional?

Taylor também questionou a ideia de que uma composição confessional precisa necessariamente ser chocante ou exagerada para causar impacto.

“Só dizer algo dramático, chocante e absurdo não significa que será algo que vai ajudar as pessoas, que vai ressoar com elas ou que será uma história importante que permanecerá na mente, no coração e na alma das pessoas.”

Para a artista, existe uma responsabilidade na maneira como experiências são transformadas em música.

“Precisamos ser intencionais. Você não pode simplesmente gritar alguma coisa louca e dizer: ‘Sou uma compositora confessional.’”

Taylor Swift revela por que “Nothing New” ficou fora de “Red”

Taylor também explicou por que “Nothing New” não entrou na versão original de “Red”, lançada em 2012. Escrita quando tinha 22 anos, a música refletia uma insegurança que ela passou a interpretar de outra maneira anos depois.

“Escrevi quando tinha 22 anos e pensava: ‘Estou acabada e sou entediante. Todo mundo já se cansou de mim. É triste.’”

Ao revisitar a faixa durante a produção de “Red (Taylor’s Version)”, porém, a percepção foi diferente.

“Então entendo por que não coloquei a música em ‘Red’, porque isso parece um pensamento passageiro quando você tem 22 anos. É uma noite triste com uma garrafa de vinho. Mas, quando eu tinha cerca de 30 anos e estava regravando a música, pensei: ‘Ah, não. Isso acerta em cheio. Acerta em cheio.’”

O impacto dos fãs na trajetória de Taylor Swift

A influência dos fãs sobre sua carreira também foi destacada durante a entrevista. Taylor citou “All Too Well” como exemplo de uma música que ganhou destaque mesmo sem ter sido escolhida como single de “Red”.

“Eu acho que a coisa mais interessante sobre a jornada de ‘All Too Well’ é que ela nunca foi single do álbum ‘Red’, e sempre foi uma música da qual eu, pessoalmente, tinha muito orgulho. Eu pensava: ‘cara, tomara que os fãs se apeguem a essa’. E aí eles se apegaram.”

A artista contou que o apoio do público levou a música a ganhar ainda mais destaque, inclusive durante sua apresentação no Grammy de 2014.

“Ela sempre foi meio que impulsionada pelos fãs se importarem com essa música. E todas as versões dela falam muito sobre o fato de que, quando eles amam algo com essa paixão, eu vou dar ouvidos.”

Taylor lembrou que “Cruel Summer” passou por um processo semelhante. A faixa, originalmente lançada em “Lover”, só se tornou single anos depois, impulsionada pela reação dos fãs durante a Eras Tour.

“‘Cruel Summer’ nunca foi single do álbum ‘Lover’ até os fãs falarem muito alto sobre como queriam ouvi-la na Eras Tour. Anos depois, mais de três anos depois, eu estava montando a Eras Tour, e os fãs diziam ‘tudo o que a gente quer ouvir é ‘Cruel Summer’’. Então eu coloquei ela como a primeira música completa daquele setlist.”

Segundo Taylor, a repercussão fez com que a faixa alcançasse um novo patamar de popularidade.

“Isso impulsionou a música a um sucesso viral esquisito, que fez a gravadora dizer ‘ei, você toparia lançar ‘Cruel Summer’ como single?’. E eu falei: ‘pode fazer isso? É de um álbum de três anos atrás’. E acontece que pode. Então foi muito gostoso ver isso acontecer.”

Como Taylor Swift transforma ideias em músicas?

Ao falar especificamente sobre seu processo de composição, Taylor revelou que não segue uma fórmula rígida. Em vez disso, mantém ideias registradas para retomá-las quando encontra o contexto adequado.

“Eu sou muito receptiva a qualquer ideia, do jeito que ela chegar. Eu não escrevo uma música todo dia, mas eu tenho uma reviravolta legal de uma frase comum quase todo dia.”

A cantora mantém um aplicativo de notas repleto de fragmentos que podem ser aproveitados posteriormente.

“Eu tenho um app de notas que é uma loucura. É rolar, rolar, rolar, rolar, dá para rolar para sempre. E isso é muito útil, porque quando eu estou numa sessão, ou quando eu engato naquele estado de fluxo de escrever uma música, eu consigo rolar a tela e imediatamente pensar: ‘isso encaixa, isso é perfeito, meu Deus, é sobre isso’.”

As melodias também podem surgir de maneira inesperada, e Taylor procura registrá-las imediatamente, independentemente de onde esteja.

“E é isso, ou então, se eu tenho uma melodia, com ou sem letra, eu pego o celular de qualquer jeito, não importa a situação social constrangedora em que eu esteja.”

A conversa também evidencia uma característica marcante da trajetória de Taylor Swift: a capacidade de transformar experiências, inseguranças e sentimentos em histórias com as quais outras pessoas conseguem se identificar. Ao revisitar diferentes momentos de sua carreira, a cantora mostrou como esse processo de transformar vivências em música continua sendo parte essencial de sua relação com a composição e com o público.

Durante a passagem pelo Museu do Grammy, Taylor também apresentou um mashup de “I Knew It, I Knew You”, “August” e “All Too Well”.

Créditos da tradução: Taylor Swift Brasil e Update Swift Brasil.

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