Bad Bunny é capa da Vogue e da GQ Brasil e fala sobre música e consciência social

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
por Alice Arruda

Bad Bunny estampa a capa da edição de fevereiro das revistas Vogue e GQ Brasil, que se uniram pela primeira vez em uma colaboração inédita para fotografar e entrevistar o artista porto-riquenho, vencedor do Grammy de Álbum do Ano com o aclamado “Debí Tirar Más Fotos“.

Bad Bunny estampa a capa da edição de fevereiro das revistas Vogue e GQ Brasil. Imagem: Reprodução.

Bad Bunny estampa a capa da edição de fevereiro das revistas Vogue e GQ Brasil. Imagem: Reprodução.

O cantor compartilhou detalhes sobre sua infância, sua relação com a moda, seu álbum, sua terra natal e sua paixão pelo Brasil. Curioso sobre os hábitos brasileiros, Bad Bunny descobriu que adorou o pão de queijo, que experimentou em um restaurante de culinária brasileira em Porto Rico. “Poderia comer uns 30 de uma vez”, brincou.

Apaixonado pelo filme “Rio“, lançado em 2011, ele revela que sempre sonhou em visitar o Brasil: “Não sei por que, mas sempre sonhei em visitar o Brasil, desde criança. É um dos poucos lugares para onde ainda não viajei. Acho que tem a ver com a música, a cultura”.

Inicialmente planejando apenas um show no Allianz Parque, em 20 de fevereiro, a alta demanda do público obrigou a inclusão de uma segunda apresentação, marcada para o dia 21 deste mês. “Não esperava que fosse esgotar em minutos em lugares como o Brasil! É sério?! Dois shows no Brasil? Dois na Austrália? Fiquei emocionado”, comemora.

O visual de Bad Bunny também se destacou no Met Gala 2025, quando ele optou por um terno marrom da Prada, complementado por um chapéu de palha em versão contemporânea, inspirado nos jíbaros, os trabalhadores rurais de Porto Rico. “Nós seguimos sendo jíbaros. Os porto-riquenhos são pessoas que, durante toda a vida, se levantam para trabalhar e manter o país em pé, quando, no final, são outros de fora que se beneficiam desse trabalho. Foi parte do conceito do projeto resgatar essa estética como parte de nós”, reflete o artista.

Filho de um motorista de caminhão e de uma professora, Benito nasceu em Bayamón e foi criado em Vega Baja. O mais velho de três irmãos, sempre cultivou laços fortes com familiares, jogando dominó por horas com tios, tias, avós e avôs. Cresceu ouvindo salsa e imitando os artistas do gênero, iniciando sua carreira no coral da igreja. Timidez e imaginação sempre caminharam lado a lado: “Eu falava sozinho. Poderia pegar isso (segura o copo de água) e imaginar que era algo. Brincava sozinho e, de repente, estava em outro planeta”, lembra.

Antes de se tornar um fenômeno global, Bad Bunny trabalhava como empacotador e atendente de supermercado, enquanto lançava sua primeira faixa, “Diles“, no SoundCloud. Seu nome artístico surgiu a partir de uma foto em que aparecia fantasiado de coelho. O cantor não queria abandonar o emprego até sentir segurança em sua trajetória musical. Antes de assinar seu primeiro contrato, entregava currículos e cogitava retomar os estudos na Universidade de Porto Rico.

Eu estava estudando comunicação na universidade. Gostava muito de rádio, ainda gosto, na verdade. Por isso, sonhava em ter um programa. Agora estou no rádio, mas de outra forma”.

Uma década após sua estreia, Bad Bunny consolidou-se como o artista mais ouvido do mundo, conquistou um Grammy de Álbum do Ano com um projeto totalmente em espanhol e atraiu o interesse de artistas de renome, como Lady Gaga, que manifestaram desejo de colaborar com ele. Em janeiro de 2025, lançou “Debí Tirar Más Fotos“, um álbum que presta homenagem a Porto Rico e mergulha em temas como nostalgia, amor, sexualidade, colonialismo, exploração econômica e social, perda da identidade local e desafios da infraestrutura da ilha.

Bad Bunny demonstra que a consciência social sempre fez parte de sua formação: “Eu era um menino com consciência. Não tanto de estar ciente do que se passava politicamente, mas de querer fazer coisas boas. De denunciar injustiças desde a época de escola. Com o passar do tempo, fui aprendendo mais”.

Em 2019, durante turnê pela Europa para divulgar “X 100PRE“, Bad Bunny decidiu adiar suas apresentações e retornar a Porto Rico para se unir aos protestos que culminaram na renúncia do então governador Ricardo Rosselló, após o vazamento de mensagens machistas e homofóbicas.

O artista também tem acompanhado a gentrificação em Porto Rico, privatizações de serviços e aumentos de custo de vida. Para denunciar essas questões, em 2022 lançou o clipe-documentário “El Apagón“, do álbum “Un Verano Sin Ti“, que atingiu quase 16 milhões de visualizações.

Em 2024, enquanto passeava discretamente por Porto Rico, Bad Bunny observou turistas aproveitando a praia de forma despreocupada, enquanto os moradores locais enfrentavam dificuldades cotidianas. Essa cena serviu de inspiração para a composição da faixa “Turista“. Durante as Fiestas de la Calle San Sebastián, a maior celebração da ilha, também criou outras músicas. Além disso, o artista manifestou oposição política nas eleições de 2024, criticando a candidatura de Jenniffer González, aliada de Donald Trump.

Ainda sobre o álbum “Debí Tirar Más Fotos“, Bad Bunny destaca a faixa “Lo que Le Pasó a Hawaii“: “É uma canção mais lenta, talvez não seja a que mais brilhe no álbum, mas é a que une tudo.” A música aborda o risco de Porto Rico seguir o mesmo caminho do Havaí, transformado em estado americano em 1959: “Querem tirar o meu rio, e também a praia, querem o meu bairro e que a avó vá embora”.

O cantor defende que artistas populares não precisam se calar diante de problemas sociais: “Artistas populares muitas vezes não dizem algumas coisas porque pensam que vão perder fãs. E essa nunca foi minha mentalidade. Se algo me perturba ou me preocupa, eu vou dizer se sentir vontade”.

Debí Tirar Más Fotos” gerou impacto, reflexão e debate, tornando-se marco para a comunidade latina e porto-riquenha. Apesar da popularidade, Benito mantém uma visão sóbria: “Não sou o ‘mais cool’ por falar desses assuntos. Tenho consciência de coisas importantes, sobre as quais sempre falei”.

Ele se define como alguém comum, uma pessoa que vive seus sentimentos e emoções: “Saio pela manhã, tomo um café, leio uma notícia que me irrita sobre este país, vou trabalhar, à noite volto para casa e saio para me divertir.

Em 2025, tornou-se o primeiro artista latino não brasileiro a entrar com uma música solo no ranking Billboard Brasil Hot 100. “Me emociona porque reconheço que no Brasil se consome mais músicas brasileiras. E eu tampouco fiz algo como colaborar com artistas de lá. Se eu sentir que quero fazer uma música de um ritmo ou com algum artista, aí sim será mais real”, explica.

Benito também valoriza a experiência da turnê, não apenas nos palcos, mas explorando a cultura, a música e a vida urbana de cada cidade. Sobre a capa de “Debí Tirar Más Fotos“, que apresenta duas cadeiras brancas de plástico, símbolos comuns na América Latina, comenta: “Senti que tem muito significado. Quanta coisa do nosso dia a dia não apreciamos porque vimos como ‘comum’, quando na verdade são tão importantes”.

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