Crítica: Becky G mostra sua versatilidade em “Baraja Bendita”, mas o álbum carece de coesão
Becky G lançou na última sexta-feira (14) seu quinto álbum de estúdio, “Baraja Bendita”. Ao longo de 17 faixas e 47 minutos, a cantora californiana de raízes mexicanas revisita o urbano, o pop latino, o hip-hop, a música eletrônica e o alternativo, gêneros que ajudaram a construir sua identidade artística no início da carreira. A escolha representa uma mudança significativa em relação a “Encuentros”, lançado há dois anos, no qual a artista mergulhou na música regional mexicana. O reencontro com suas origens, porém, não resulta em um trabalho tão consistente quanto sua proposta conceitual sugere.

Becky G em imagem promocional do álbum “Baraja Bendita”. Foto: Divulgação.
Apesar da proposta interessante, a primeira metade do disco apresenta poucos momentos realmente memoráveis. Entre as faixas que menos funcionam, “5’5” se mostra um dos pontos mais fracos e não é uma escolha acertada para abrir o álbum. Com uma produção eletrônica genérica, a música tem dificuldade para criar uma identidade própria. Becky G narra um encontro casual marcado por olhares, tequila, risadas e o nervosismo de quem está interessado em alguém, mas a abordagem não encontra na produção elementos capazes de sustentar a narrativa ou prender a atenção.
Em contrapartida, “Oasis” representa um dos primeiros momentos em que o álbum encontra maior equilíbrio. A faixa combina pop latino, dance-pop e elementos eletrônicos para construir uma atmosfera sensual e envolvente. O oásis funciona como metáfora para o desejo, enquanto Becky G se coloca como esse refúgio para a pessoa amada, oferecendo prazer e uma fuga da rotina. A produção dançante conversa bem com a temática romântica e faz da música um dos pontos altos do início do projeto.
Esse equilíbrio também aparece em “Mal Tiempo”, um merengue sobre o orgulho de duas pessoas que ainda sentem saudade, mas têm dificuldade para recomeçar. A mesma segurança pode ser percebida em “Factos”, que aproxima o pop latino de influências urbanas ao retratar um amor que não se deixa limitar pelas previsões do zodíaco. As duas faixas mostram Becky G transitando por diferentes gêneros com mais naturalidade e estão entre os melhores momentos da primeira metade do disco.
Na segunda metade, o disco encontra alguns de seus momentos mais sólidos. Entre eles, “Unsend” surge como uma das faixas mais interessantes, abordando de maneira leve e divertida a tensão entre amizade e desejo. A música acompanha uma relação que começa a ganhar contornos românticos quando a personagem, após algumas bebidas, decide se declarar sem medo do arrependimento. Em “Perreo Triste”, a cantora demonstra segurança no reggaeton, gênero que domina. A canção combina a energia do perreo com uma narrativa de sofrimento amoroso, enquanto a festa e o álcool funcionam como uma tentativa de esconder a dor.
O ponto alto do projeto, no entanto, é “Bandera Blanca”. A faixa começa próxima de uma balada e, aos poucos, incorpora uma batida suave com influência de reggae. A letra explora as contradições de um relacionamento complicado, atravessado por amor, dor, discussões e intimidade. A combinação desses elementos faz dela uma das faixas mais bem construídas do álbum.
Também merecem atenção os singles “EPA” e “Marathon”. A primeira une reggaeton e dembow em uma celebração de viver o presente e deixar as preocupações de lado. Na sequência, “Marathon” combina pop, hip-hop e electropop e transforma a corrida de longa distância em metáfora para resistência, autenticidade e superioridade feminina. As duas faixas contribuem para a diversidade sonora do projeto sem comprometer sua unidade.
Entre os pontos negativos, “Automatico” é a pior faixa do álbum. A forma como a música retrata o desejo que surge de maneira espontânea é pouco interessante, e a produção eletrônica pouco contribui para tornar a faixa mais marcante. No funk de “2AM”, Becky G aborda o desejo de exclusividade e posse dentro de um relacionamento, mas a música acaba passando despercebida diante de outras faixas do álbum. Em “GLITCH”, a cantora retorna ao hip-hop, gênero que explorava no início da carreira, em uma faixa descontraída que celebra liberdade, autonomia feminina e autenticidade, mas não apresenta o mesmo impacto de outras músicas do disco.
Na zona intermediária ficam “CNTRL”, “+ Pretty”, “Chula” e “Patrona”. Nenhuma das quatro compromete o resultado final, mas também não se destaca o suficiente para se tornar indispensável. Embora contribuam para a diversidade sonora do repertório, as faixas têm menos impacto do que os melhores momentos do álbum e pouco acrescentam à experiência como um todo.
Em “Baraja Bendita”, Becky G apresenta bons momentos e escolhas certeiras. A cantora demonstra versatilidade ao transitar por diferentes gêneros, mas tropeça justamente ao não conseguir transformar essa diversidade sonora em um repertório coeso.
NOTA:

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