Luísa Sonza revela seu lado mais visceral no álbum “Brutal Paraíso”

quarta-feira, 8 de abril de 2026
por Alice Arruda

Luísa Sonza apresentou na última terça-feira (7) seu quarto álbum solo, “Brutal Paraíso”. Com 23 faixas e pouco mais de uma hora de duração, o projeto articula uma combinação ousada de bossa nova, funk, pop oitentista, trap e reggaeton, evidenciando a versatilidade da artista.

Luísa Sonza em foto promocional para o álbum "Brutal Paraíso". Imagem: Divulgação.

Luísa Sonza em foto promocional para o álbum “Brutal Paraíso”. Imagem: Divulgação.

Se o recente “Bossa Sempre Nova“, álbum colaborativo com Roberto Menescal e Toquinho, apostava em uma atmosfera idealizada, o novo trabalho segue na direção oposta. Neste, a cantora constrói um retrato mais áspero e desencantado da realidade, sustentado por contrastes já sugeridos no próprio título.

A abertura do disco sugere uma memória ilusória de paraíso, recorrente ao longo da obra. O mar, elemento simbólico constante, deixa de ser apenas paisagem para se tornar vestígio de uma utopia fragmentada por instabilidades emocionais. É a partir dessa tensão que o álbum se estrutura.

Em “Fruto do Tempo”, a sonoridade remete à bossa nova, mas sustenta uma narrativa marcada pela desilusão. A faixa dialoga com “Consolação”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, não como homenagem, mas como contraponto. A reflexão sobre o amor surge invertida: não mais como hipótese, e sim como ausência constatada.

Ao longo do disco, o percurso emocional migra da idealização ao ceticismo. Em “Amor, Que Pena!”, a estética bossanovista convive com elementos pop, traduzindo o esgotamento das expectativas. Já “E Agora?”, com Xamã, incorpora referências a “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer”, de Fernando Mendes, transitando entre o violão e a eletrônica.

“Loira Gelada” revisita a clássica faixa do RPM sob uma nova perspectiva, embora as mudanças rítmicas, em alguns momentos, prejudiquem a clareza da interpretação. Em “Santa Maculada”, que ecoa “Pena Verde”, de Abílio Manoel, a figura feminina ganha contornos mais densos, impulsionada por uma sonoridade de viés rock.

A partir de “Tropical Paradise”, o disco assume uma abordagem mais sensual. “Safada”, com Young Miko, e “Sonhei Contigo”, com MC Morena e Meno K, exploram o funk como expressão de sensualidade e energia física. Esse eixo se intensifica em “French Kiss”, com MC Paiva ZS, e em “Telefone”, que incorpora elementos mais agressivos ao abordar o fim de um relacionamento.

O álbum estabelece um diálogo contínuo com a tradição da MPB, ao evocar referências como “Brigas Nunca Mais” e construir pontes com o universo de Nelson Rodrigues e Gilberto Gil.

Na reta final, a narrativa desacelera. Faixas como “O Som da Despedida” e “Depois do Fim” tratam o encerramento como transição. “Quando” aponta para uma visão mais madura sobre rupturas e recomeços, inspirada em “Depois”, de Marisa Monte.

A faixa-título encerra o álbum em tom íntimo, construída como uma carta para a sobrinha da artista. O gesto dá unidade ao projeto ao transformar a dor em acolhimento. Ao afirmar “Hoje é por mim que eu canto”, Luísa Sonza não resolve o conflito, mas o assume, e é nessa consciência que o disco encontra seu desfecho.

 

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