Madonna lança “Confessions II” e reafirma seu reinado na pista de dança
Madonna lançou nesta sexta-feira (3) seu 15º álbum de estúdio, “Confessions II”. Com 16 faixas e 1h03 de duração, o projeto se consolida como o melhor trabalho da artista nas últimas duas décadas.

Madonna em ensaio promocional de “Confessions II”. Foto: Rafael Pavarotti/Divulgação.
Pela primeira vez em sua carreira, Madonna dá continuidade direta a um álbum. Lançado em 2005, “Confessions On A Dance Floor” tornou-se um dos discos mais emblemáticos de sua trajetória ao mergulhar na disco music e nas sonoridades das pistas de dança dos anos 1970. Mais de duas décadas depois, a Rainha do Pop revisita esse universo sem se limitar a repetir o trabalho original. Entre as conexões mais marcantes está o retorno do produtor Stuart Price, peça fundamental na construção da identidade sonora do primeiro “Confessions”.
Quando lançou “Confessions On A Dance Floor”, em 2005, Madonna também encontrou na pista de dança um refúgio em meio a um período de grande instabilidade política, marcado pelas tensões no Oriente Médio após a Guerra do Iraque. O álbum foi lançado dois anos depois de “American Life” (2003), trabalho em que a artista fez duras críticas ao militarismo dos Estados Unidos, à superficialidade da fama e ao consumismo ligado ao chamado “sonho americano”. Anos mais tarde, em “Madame X” (2019), ela voltou a explorar temas políticos e sociais, abordando assuntos como controle de armas, fanatismo religioso e o cenário sociopolítico mundial.
Em “Confessions II”, as referências ao álbum de 2005 surgem de forma natural, sem sugerir uma repetição do trabalho anterior. Desta vez, Madonna deixa em segundo plano as influências da disco music dos anos 1970 para mergulhar na house music contemporânea, incorporando elementos da efervescente cena dance atual e construindo uma identidade própria. O álbum se estrutura em formato non-stop, com transições contínuas e impactantes.
As três primeiras faixas, “I Feel So Free”, “Good For The Soul” e “One Step Away”, formam uma sequência de aproximadamente 12 minutos e abrem o disco em tom grandioso. Sobre batidas pulsantes, Madonna transforma a pista de dança em um espaço de libertação enquanto sugere uma entrega quase espiritual à música. “Às vezes, gosto de me esconder nas sombras”, canta na faixa de abertura sobre um sample de “French Kiss”, clássico house de Lil Louis lançado em 1989. “Posso ser quem eu quiser, criar uma nova persona. Honestamente, gostaria de ser como as outras pessoas e simplesmente não me importar com nada, mas aqui na pista de dança, me sinto tão livre.”
Musicalmente, “I Feel So Free” dialoga com a atmosfera de “Future Lovers”, de “Confessions On A Dance Floor”, oferecendo uma nova leitura do universo sonoro de 2005.
Em seguida, “Bring Your Love” marca o aguardado encontro entre Madonna e Sabrina Carpenter. Primeiro single do álbum, a faixa foi apresentada ao público durante o Coachella, em abril. Com influências do techno de Detroit e uma interpolação de “Good Life”, clássico do Inner City lançado em 1988, a canção aborda a inspiração artística sob a perspectiva de duas gerações do pop. Em um dos momentos mais marcantes, Madonna canta “Manda ver, Sabrina”, acentuando a leveza e o carisma da colaboração.
Entre os pontos altos do álbum está “Danceteria”, uma celebração vibrante da cultura disco e uma declaração de amor ao lendário clube nova-iorquino onde Madonna deu seus primeiros passos na cena artística. Na letra, são citados Debi Mazar, Jean-Michel Basquiat, Fab Five Freddie, Keith Haring, Nile Rodgers, David Byrne, os B-52s, Lounge Lizards e Lou Reed, compondo um retrato afetuoso daquele período e transformando a faixa em uma viagem nostálgica e envolvente.
Em seguida, “Read My Lips” apresenta a aguardada parceria com o cantor, compositor e produtor colombiano Feid, um dos principais nomes da música latina da atualidade. Produzida pelo porto-riquenho Tainy, a faixa bilíngue aborda desconfianças, mentiras e amores frustrados, misturando house music, violões de inspiração espanhola, elementos urbanos e ritmos latinos, além de incorporar referências ao funk brasileiro e ao samba. O resultado é uma das canções mais versáteis do álbum, refletindo a capacidade de Madonna de dialogar com diferentes sonoridades sem perder sua identidade.
Os trechos falados voltam a ocupar um papel central, funcionando como elemento estrutural do álbum e revelando a relação de Madonna com a música eletrônica, como já ocorre na abertura. Em “Everything”, essa abordagem atinge um de seus momentos mais diretos: sobre uma base de EDM, a cantora repete “Não está tudo bem/ Eu não curto isso”, transformando a faixa em uma declaração marcada pela atitude e pelo controle da própria narrativa.
Em “Love Sensation” e “Love Without Words”, o amor surge como eixo temático em uma abordagem menos óbvia na discografia da artista, que historicamente evita assumir o papel de figura de redenção ou unidade.
Outro destaque é “Bizarre”, colaboração com o DJ e produtor holandês Martin Garrix, na qual Madonna mergulha na música eletrônica contemporânea. Nas redes sociais, surgiram especulações de que a canção seria sobre Sean Penn, ex-marido da cantora. Mais do que isso, a faixa parece funcionar como uma reflexão sobre memória e relações passadas, marcada por sentimentos de admiração, intensidade e conflito, além da dificuldade dele em lidar com o peso da fama da artista.
O projeto começa a revelar de forma mais clara seu núcleo emocional, passando a um território mais introspectivo. A intensa e quase litúrgica “School” trata do amadurecimento, enquanto “Fragile” assume uma abordagem mais contida e expõe a vulnerabilidade, na qual Madonna lamenta a morte de seu irmão Christopher, com quem havia se reconciliado em 2024, pouco antes de seu falecimento.
Já “My Sins Are My Savior”, com participação de Stromae, dialoga com a house music francesa por meio de uma produção fragmentada e experimental, abordando relações conturbadas, excessos e percepção pública.
Em “Betrayal”, o instrumental, marcado por um trompete solitário, assume um caráter sombrio e enigmático. A faixa gerou teorias de que Madonna estaria se referindo à sua madrasta, Joan Ciccone, que morreu em 2024 após uma batalha contra o câncer. Na letra, ela canta:
“Esta é uma história de traição/Você não conseguiu enxergar sua queda em desgraça/Então pegue o martelo, bata no prego/ Você nunca ocupará o lugar da minha mãe”.
O ponto mais emocional do disco se dá com “The Test”, com a participação de Lourdes Leon, filha de Madonna. Na faixa, a cantora se desculpa por tê-la inserido no universo da fama. Logo no início, é citada “Little Star”, canção dedicada à filha presente no álbum “Ray Of Light” (1998).
O álbum encerra com “L.E.S. Girl”, uma carta de amor a Nova York e um olhar sobre a trajetória de Madonna como artista em Nova York antes da fama, no início dos anos 1980. A faixa preserva um tom melancólico contido, evita o sentimentalismo e sustenta sua simplicidade sem perder impacto.
Ao longo de “Confessions II”, Madonna revisita sua relação com a pista de dança a partir de uma perspectiva mais ampla, em que a euforia da música eletrônica convive com momentos de introspecção e vulnerabilidade. O resultado é um álbum que retoma o universo de “Confessions On A Dance Floor” sem se limitar à nostalgia, reafirmando sua capacidade de reinvenção após mais de quatro décadas de carreira.
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